Ouvindo os internautas e suas histórias, me permiti interromper meu trabalho por alguns instantes e voltar um pouco no tempo na minha "muita amada e querida Cidade de São Paulo" (como dizia todos os dias o saudoso Randal Juliano no show da manhã).
Nasci no bairro da Ponte Pequena, bem próximo aonde é hoje a Estação Armênia. Viemos para o bairro da Consolação em 1951, onde cresci. Ainda hoje vivo no bairro. Viemos morar na Vila Paula, uma vila com aproximadamente 50 casas ao lado do cemitério da Consolação. Nossa Vila Paula era uma mistura de italianos e portugueses, onde lá mesmo nossos pais "resolviam suas questões", muitas vezes em altos brados no meio da rua, mas nunca com violência física. As mulheres se cotizavam, ajudavam umas as outras. Quando tinha algum aniversário, as vizinhas faziam os doces e tudo era farto e gostoso, quando alguém ficava doente, lá iam elas e ajudavam no que podiam, até mesmo tomando conta do doente.
Éramos muito unidos. Frequentávamos o Grupo Escolar São Paulo, na esquina da Rua Antonia de Queirós com a Consolação até o término do até então curso primário. Descíamos a rua em direção a escola e todos os dias parávamos na loja de empalhamento de animais, bem em frente à Rua Sergipe para vermos as novidades. Havia pássaros, lobos, tatus e vários outros animais expostos na vitrine. Lá dentro, um senhor de óculos muito grosso nos causava certo medo, pois se dizia a "boca pequena" que ele já havia empalhado pessoas. Um belo dia fomos surpreendidos com um jacaré na vitrine. Acredite, era o jacaré do Tibúrcio. Tibúrcio era o filho do Sr. Flauzino (administrador do cemitério da consolação), que morava em um terreno onde hoje é o quartel do Corpo de bombeiros.
Um belo dia o pequeno réptil apareceu, não se sabe de onde, no terreno e nós o adotamos, fizemos uma lagoa nos fundos e um belo dia o "bicho desapareceu" e qual não foi nossa surpresa ao vê-lo na vitrine da loja de empalhamento de animais. Muitos diziam que não era o mesmo animal, mas tenho cá minhas dúvidas que era sim nosso jacarezinho, mas não tivemos coragem de protestar junto ao dono da loja, pois tínhamos medo de ser também “empalhados”.
Andávamos de bicicleta por todo bairro indo até mesmo para o centro. Certa vez, minha mãe mandou-me ao Mappin pagar uma prestação dos vários carnês que tínhamos dessa saudosa loja. Peguei minha bicicleta, desci a Consolação, entrei na Xavier de Toledo e quando parei ao lado do Mappin tive uma surpresa: vários soldados na rua e sobre a marquise da loja. Vários jipes se movimentavam em direção à Rua Conselheiro Crispiniano, onde havia o comando do II Exército; eu meio assustado via toda aquela movimentação sem entender muito o que ocorria.
Era o dia 31 de Março de 1964. No meio daquele tumulto, resolvi voltar. Normalmente eu retornava pela Xavier de Toledo, parava na esquina da Rua Sete de Abril e ali esperava o bonde Pinheiros ou Vila Madalena, tanto faz; saindo da Rua Xavier de Toledo, subia a Conselheiro Crispiniano, entrava na Sete de Abril. Segurava na lateral e assim podia-se subir a Rua da Consolação sem esforço algum, como se dizia "chocar o bonde". Era uma época muito rica. Minha casa dava fundos exatamente para o Teatro Record. Creio que assisti a todos os festivais, Família Trapo, Fino da Bossa, fora shows internacionais, Jovem Guarda aos domingos. Ah! Que saudade.
Aos domingos, ficávamos em frente ao teatro esperando os artistas entrarem, assistíamos ao programa e em seguida ficávamos na rua esperando que eles saíssem. Tinha também o show anual de gala do Troféu Roquete Pinto, tudo era festa. Saudades da Orquestra da Record, que tinha um músico (pandeirista), que era nosso vizinho, motivo de orgulho de toda vila, era o nosso saudoso "Pato Preto". Talvez muitas pessoas ao ouvirem este relato vão se recordar até mesmo das pessoas que aqui homenageio como figuras desta cidade e do Bairro da Consolação. Não posso me esquecer do Senhor Narciso. Um homem negro, forte, alto que, com orgulho, vestia um terno azul marinho, um quepe azul com uma placa escrita: “CMTC 306”; nunca me esqueci daquela figura e daquele número. O Senhor Narciso era motorneiro do bonde Pinheiros e com uma pontualidade britânica todos os dias às 11h30 parava seu bonde na Rua da Consolação, esquina da Coronel José Eusébio, tocava forte o famoso “bleim, bleim, bleim” do bonde, chamando a garotada que ia em direção a Pinheiros.
Saíamos da nossa vila, éramos oito meninos, corríamos e pegávamos o bonde que nos deixava na Esquina da Rua Teodoro Sampaio com João Moura, onde fazíamos o curso de admissão no colégio Godofredo Furtado. Ao Senhor Narciso, motorneiro número 306, deixo aqui minha homenagem e meu agradecimento, já neste momento com lágrimas nos olhos.
Obrigado pela oportunidade.
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