Sarau de uma matriarca

Hábitos e costumes mudaram muito nos últimos cinquenta anos. As famílias ficam cada vez menores, avôs, pais, filhos, primos, tios e sobrinhos raramente se encontram. Pouco se recebe em casa. Estas considerações são decorrência de ótimas e informais reuniões familiares que, nas décadas de 40/50, aconteciam com frequência, sem necessidade de convite prévio. Tive a oportunidade de estar em pelo menos três, nas casas de Dona Otília Soares Moreira, Dona Maria Guedes Penteado, seu Tônico Leite. Hoje, registro minhas lembranças dos saraus de Tia Otília.

A grande casa, em estilo francês, ocupava um terreno que, imagino, tinha de 1000 a 1500 m² na esquina da Avenida Angélica e Rua Pará. O palacete ocupava o espaço onde hoje existe a Escola Pan-Americana de Arte, e tinha como vizinho, na Rua Pará, o casarão dos Gasparian. A entrada nobre ficava bem no centro da edificação, à esquerda, guarnecida por um enorme portal de fina serralheria guarnecida de vidros. Abre-se para um hall quadrado, na lateral esquerda a entrada para uma saleta de visitas e do lado direito acesso para área residencial íntima, adiante dá direto para uma enorme sala de estar, limitada à direita por imponente escadaria de acesso ao andar superior e do lado esquerdo, em toda sua extensão, duas portas limitam o espaço da nobre sala de visitas, decorada com finos móveis franceses. Bem defronte para a entrada ficava a confortável cadeira ocupada sempre por Tia Otília, encostado à parede da escada um grande sofá e, espalhadas pelo ambiente, diversas cadeiras.

Desta sala de estar chegava-se à sala de jantar, ocupada por uma imensa mesa que devia comportar mais de vinte pessoas sentadas, penso que as paredes laterais ostentavam lindos e coloridos vitrais. Na extremidade da sala ficava uma grande copa, da qual saia uma íngreme escada de serviço para o andar superior. A copa era o domínio de Oscar, afrodescendente de cabelos brancos, sempre muito elegante, tanto de dolmam branco de botões dourados, como de calça preta e jaqueta listrada de azul e branco. Oscar sempre foi um agregado de Dona Otília, assim como uma cozinheira, também afrodescendente, cabelos grisalhos, ambos residiam encima da garagem que comportava, no mínimo, quatro carros. Outros empregados serviam as famílias de Tia Izabel, Tia Vera e Otilinha.

A cozinha ligada à copa dava acesso ao quintal dos fundos. Neste cenário difícil de imaginar nos dias atuais, Tia Otília exercia com muito amor, carinho e dignidade seu matriarcado. Nas décadas de 40/50, moravam na casa: Tia Otília e sua irmã Tia Nicolina, suas filhas Izabel, Vera a neta Otilinha e suas famílias, pelo que me lembro os netos eram: Maria Izabel, Otilinha, Leo, Jojo, Antomio Claudio, Vera Cristina, Julinho, Fabio, Dadacha e Fernão, além dos bisnetos filhos de Otilinha e Klaus. Nas tardes de sábados/domingos a casa recebia ainda os filhos de Tia Otília e suas famílias, Jorge, Carlos e Roberto e ainda o pessoal de tia Nicolina Jorge e Lafayete. Minha família e de tia Nenê sempre aparecia, além de muitas outras tias de segundo grau, das quais me lembro da figura, mas esqueci os nomes.

As crianças brincavam no quintal, os adultos conversavam na sala de estar. Ao cair da noite, era servido um farto lanche com sopas, café com leite, pães e muitos doce e bolos, tudo servido pelo simpático Oscar. Às vezes alguém tocava o piano, na sala nobre. Eu era endiabrado e minha reinação era fazer ligação direta, usando o papel prateado de um maço de cigarros, na viatura da Força Pública que servia ao Major Lafayere, filho de tia Nicolina. Que saudades enormes daquele tempo e da grande família que formávamos e nos frequentávamos.

A matriarca tia Otília, nas férias, transferia-se para a Fazenda das Palmeiras em Itatiba, onde recebia a família no enorme casarão com imenso terreiro, piscina e um terraço coberto onde papai exibia seus dotes de exímio bailarino sobre patins. A primeira vez que fui à fazenda fomos até Itatiba primeiro, em um trem da Paulista até Louveira, daqui até Itatiba de jardineira pela Itatibense e da cidade até a fazenda de trole, puxado por dois cavalos.

Anualmente, na casa da Av. Angélica ou na fazenda, tia Otília organizava uma ótima festa de São Pedro, seu santo padroeiro. Recordações como as que acabo de registrar enchem minha vida, meus sonhos e minha memória. Tenho saudades de tudo e de todos. Hoje, espalhados por São Paulo e pelo mundo, os personagens que menciono e seus filhos e netos podem compartilhar um pouco o passado, graças ao avanço da internet e ao espírito agregador que comanda os adeptos do Facebook.

Gostaria muito de manter contado pessoal com meu imenso universo de primos de diversos graus. Aquela frase de samba, mais que repetida, encerra este depoimento: “Recordar é viver eu hoje sonhei com vocês”.

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