E o barco virou…

João nunca se preocupou com a vida. O negócio dele era viver "hoje". Quando ele era jovem meu avô o colocou como responsável pelo depósito de munições da fazenda. Tanto pólvora como artigos de pescaria estavam sob seu controle. Logo depois disso ele descobriu que era bem mais fácil pescar com dinamite, esse negócio de ficar dando banho na minhoca não era com ele. Apesar disso, aprendeu a fazer redes e tarrafas como nenhum outro. Ele sabia escolher o bambu certo para fazer agulhas para trançar as redes e para mim era um trabalho artesanal. Cabe salientar aqui que ele nunca se interessou por escola, não suportava ficar fechado numa sala de aula. Ficava até doente. Passou por esta vida trabalhando como pedreiro, marceneiro e eu o chamava de tarrafeiro.
Certo dia disse que iria construir um barco de 10 metros e como tinha conhecimentos de marcenaria ninguém duvidou. As tábuas logo começaram a chegar no seu terreno. A Ana, sua esposa, ficava brava porque quase todo dinheiro que ganhava, gastava no projeto. Todo dia gastava algumas horas serrando, lixando, e também infernizando os vizinhos com tanto barulho. Havia também os que vinham de longe e sentavam-se embaixo da velha mangueira somente para vê-lo trabalhar.
E o barco foi ganhando forma com o passar do tempo e finalmente ele começou a dar os toques finais como, envernizar, pintar e depois me convidou a ir com ele até a Mesbla, na Av. do Estado para buscar o motor que havia comprado. Era um motor usado e se não me engano, era da marca Johnson. Nem ele acreditava no que estava vendo e tinha uma ansiedade danada para levar o barco para a represa. Depois de alguns orçamentos para fazer a carreta, ele desistiu e convenceu o Roberto, que trabalhava no Expresso Foguete, de levar e buscar o barco com um caminhão.
O sábado chegou, fizemos um mutirão para colocar o barco no caminhão e fomos nós para Santo Amaro. O carro do Italiano estava lotado com redes, varas, lanternas, butijão de gás, colchonete e avisamos as mulheres que somente voltaríamos na quarta-feira e com muito peixe.
A viagem me pareceu durar uma eternidade e chegando no local, ele chamou várias pessoas para ajudar a descarregar e em um pouco mais de uma hora o barco estava batizado. O caminhão foi embora e só ficamos com o fusca do Italiano.
Com o barco na água começamos a navegar. No barco ia o João, seu filho Jonas, um amigo da família conhecido como Italiano e eu com meus doze anos de idade. Como o João já havia estado antes naquele lugar com outros amigos, estava tranqüilo pois conhecia o lugar. O dia estava meio chuvoso e havia até neblina.
De repente, o barco bateu em um tronco que estava submerso e o barco pendeu para o lado esquerdo e começou a entrar água. Todos sabiam nadar muito bem e eu, que não sabia, fui salvo pelo primo Jonas que me arrastou pela camisa ou pescoço até chegarmos do outro lado. E o João nunca mais se atreveu a construir outro barco. O que era para ser um sonho, terminou em pesadelo.