Sao Paulo nao é minha…

Aprendi a gostar de São Paulo e, com saudável inveja, leio as narrativas das pessoas que nela moraram e, podem assim, revelar "intimidades" próprias de quem conviveu com a cidade. Morei 1 ano em São Paulo, precisamente na esquina da Brigadeiro com a Paulista, Edifício Nações Unidas. Tenho recordações esparsas daquele ano; o jardim atrás da Igreja da Imaculada Conceição, muito bonito, por onde passeavam os padres, o pequeno cinema na esquina da São Carlos do Pinhal/Brigadeiro, o Trianon, na Paulista, onde ainda haviam preguiças arrastando-se árvore acima e os sapateiros italianos do Bixiga que, não só consertavam sapatos, como também os fabricavam. Cheguei a trabalhar para um deles e, se não cheguei a ser um mestre na arte, ajudei muita gente a pisar firme com saltos "carrapetas" feitos de madeira e recobertos com couro… Lembro de um destes artesãos italianos que ganhou muito dinheiro fabricando os sapatos de cor "esfumaçada" na época da Jovem Guarda. Ficava na Paulista, em frente ao Nações Unidas. Das lembranças, uma me intriga: havia nas proximidades do bairro Bixiga, onde este faz limite com a Av. Nove de Julho (na verdade, não sei bem se ali ainda é o Bixiga), uma pedra enorme onde eu me sentava para ver o movimento dos carros lá embaixo. Imagino que a pedra tenha sido removida, o que é lamentável, pois nunca mais a vi. Houvesse sido mantida em uma praça pública, emprestaria beleza e, suavizaria o esfumaçado e áspero trafego da Nove de Julho. Fato é que, perdi "minha" pedra para sempre…
Depois daquele ano, aprendi a amar São Paulo por "atacado", já que por ela andava como visitante e, não mais na condição de morador. De todo modo, sempre a senti como minha cidade e, assim, a criticava e elogiava sem falsa intimidade. Em cada canto da cidade havia um detalhe que a fazia minha cidade. Assim era o cheiro delicioso de chocolate da Kopenhagenn na Joaquim Floriano, o odor sóbrio do queimar das velas na Igreja dos Enforcados (Santa Edwiges) na Liberdade, e o exalar antigo das filatélicas de judeus e europeus nos prédios da Barão e adjacências, as ruas compridas na Vila Romana (Lapa), o movimentar laborioso dos homens de frete na região do Mercado, a simpatia da ponte sobre o Tiete, próximo a Gabriela Mistral, na Penha, onde homens e meninos pescavam a sombra de velhos eucaliptos… Claro, a todo dia se segue uma noite e, São Paulo lá estava com as choperias em Moema… João Sen, Biehale (deve ser escrito de outro modo mas, faz tanto tempo que, sei, irão me desculpar..), o Galpão, onde Carlos Galhardo se fazia acompanhar de um grupo de argentinos e seus bandoleoes, garimpando nostalgias em velhos e jovens corações… Tinha lá um refugiado chileno que, até com certa competência, cantava Violeta Parra e Mercedes Sosa… Deve estar feliz com a partida de Pinochet…
Enfim, São Paulo ficou em mim… Hoje, confesso, olho com tristeza a brutalização e o emporcalhamento de uma cidade que, um dia, gozou de certo refinamento. Com toda certeza, vivemos ali, tempos mais honrados… Honrados até mesmo na maneira de ser desonesto. Já vão longe os tempos em que ter a carteira "batida" na Praça Clovis, não envolvia violência, tamanha era a habilidade do gatuno. O conto do vigário era motivo de diversão, menos, claro, para o infeliz otário. Gino Menegheti era o legendário rapina a se movimentar ligeiro pelos telhados alheios… Naqueles tempos, ainda se namorava no portão e, mulher nenhuma ficava de pé em um coletivo, havendo um homem sentado. A "pelada" disputada na rua, cessava imediatamente quando se aproximava uma mulher ou um idoso… Nos dias de hoje, é cabível esclarecer aqui que, "pelada" era uma inocente partida de futebol em rua de terra batida… Enfim, São Paulo está a esperar por melhores dias…