Complexo de superioridade

Na época em que era estudante do ensino médio, fiz amizade com uma garota muito simpática, prestativa e estudiosa. Quando ia à minha casa, ajudava-me nos meus afazeres domésticos – eu não trabalhava fora na época, por isso devia cuidar da casa – e depois estudávamos, e muito! Quando eu a visitava, sentia um clima meio estranho entre ela e sua família. Suas duas irmãs eram bem diferentes dela, tanto no físico quanto no jeito de ser e seu irmão caçula também não tinha nada a ver com ela. As garotas eram altas, inclusive a mais velha estava ingressando na carreira de modelo, eram vistosas, bonitas e muito charmosas. A minha amiga era baixinha, meio gordinha, bonita de rosto e bem mais morena de pele que as suas irmãs. Tenho a impressão de que era filha adotiva, mas nunca tive a confirmação. Mas, não é esse o caso.

Descrevi esses detalhes para tentar justificar – inclusive para mim – suas atitudes que, muitas vezes, me colocava em uma tremenda saia justa! Certa vez, em uma roda de amigos no intervalo, ela começou a descrever uma cena, uma situação que teria se passado em sua casa, naquele fim de semana. Disse mais ou menos o seguinte: "Eu estava em meu quarto estudando e ao redor da piscina tinha muita gente conversando, rindo e meu pai foi me chamar, insistindo comigo para que eu descesse e fosse lá tomar parte da conversa. Lá estavam filhos de deputados, amigos de meu pai, filhos de grandes empresários, todos uns esnobes e como eu não ligo para dinheiro, para status, recusei-me a descer, o que deixou meu pai muito bravo comigo! Sou uma pessoa simples, humilde e esses caras não fazem a minha cabeça! Não é verdade Regina que isso acontece todos os fins de semana lá em casa? A Rê sabe, porque ela está sempre lá e acompanha o que acontece!"

Gente, a cada afirmação dela (em que pedia minha confirmação) eu ficava muito sem graça, sem ação! Ficava com pena dela, de desmenti-la, mas também não queria passar por mentirosa! E ela descrevia várias situações semelhantes nas quais ela fazia valer a sua “humildade”. Muitas vezes nossos colegas vinham me perguntar se era verdade tudo o que ela dizia e eu nunca confirmei. Eu tentava sair pela tangente, gaguejando palavras ou frases que não me comprometessem, tentando sempre desviar o assunto! Essas conversas estavam se tornando cada vez mais frequentes. Eram tantas mentiras contadas que ela já estava acreditando serem verdades verdadeiras! Ela passou a contá-las para mim, como se eu não soubesse, não conhecesse a sua realidade! Comecei a perceber que aquele sentimento de superioridade, travestido de uma pseudo-humildade, era, na realidade, um grande sentimento de inferioridade! Ela se sentia inferior às suas irmãs; não recebia a mesma atenção dos pais, principalmente do seu pai, e isso, acho, que acabou por mexer muito com ela e provocou aquelas atitudes insanas!

Seu pai era um próspero vendedor – vendia de tudo – tinha um depósito enorme em sua casa, onde guardava um sem-número de mercadorias, de todos os tipos e valores. Mas, não era rico como ela dizia. Tinham uma bela casa, bem grande, no bairro do Tatuapé, mas não tinha piscina. Certo dia, dois professores nossos vieram falar comigo, perguntando-me se eu conhecia a casa dela em Camboriú/SC, pois ela os convidou para irem lá e ficou de levar as chaves para eles no colégio. Não tive coragem de lhes falar a verdade, que não existia casa alguma, mas deixei para ela resolver. Até hoje não sei qual a desculpa que ela deu para não emprestar a casa que não existia! Eu percebi que ela sofreria muito se eu a fizesse ver o que estava fazendo e, como eu era muito nova na época, não sabia bem como poderia ajudá-la!

Terminou o ano, nos formamos e acabamos nos distanciando. Certo dia, ela apareceu em minha casa com o seu pai para me entregar seu convite de casamento. Estava grávida, mas iria se casar antes das suas irmãs! Nunca mais a vi ou tive notícias suas, apesar de gostar dela. Se fosse hoje, encararia toda a “estória” de outra maneira e buscaria a necessária ajuda para ela! Para mim, na época, ficou muito claro que tudo isso era para esconder o quanto se sentia rejeitada pela sua família. Espero, em Deus, que o casamento e a chegada do bebê tenham-na ajudado a superar esse grande problema.

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