Malandragem Paulistana

Malandro nunca fui, mas que andei no meio da malandragem isto é verdade. Não quero dizer que era santinho. Mas malandro mesmo era aquele que se aliviava sem prejudicar alguém fisicamente. Malandro tinha como escopo não trabalhar, e ter algum dinheiro no bolso. Para isso geralmente o bom malandro era um viciado em todo tipo de jogo. Bilhar, dado, porrinha, baralho, apostar nos cavalos, e até aposta em cuspe a distância. Adivinhar quantos palitos tinha numa caixa de fósforos, valendo uma grana é lógico. Mas sempre tinha alguma roubalheira o que facilitava sempre um dinheirinho rápido no bolso. O roubo também fazia parte do bom malandro. Punga, por exemplo. O bom punguista tirava uma grana do bolso alheio, sem que a vítima percebesse. Roberto, um taxista que tinha olhos por toda parte do corpo, certa vez no bar que ficava debaixo do cine Cairo, na rua Formosa, ao pagar a conta, percebeu que tinha gente de olho na sua carteira. Sabendo que ia ser roubado, colocou a carteira no bolso da jaqueta e deixou uns caraminguás no bolso da calça. No meio daquele monte de gente ele com sua namorada pedindo licença para sair. Estando na rua colocou a mão no bolso. Ai é percebeu que o mesmo estava todo para fora sem os trocados que lá tinha deixado. Assim era Lagartixa um pilantra que fazia ponto no início da avenida São João esquina com o Anhangabaú, bem na frente à pastelaria do Chinês. A noite ele era vendedor de jóias, que tinha surrupiado durante o dia. Pulseiras, correntes com medalhas ou sem. Com ele é que se podia encontrar com facilidade muitas mercadorias a preços módicos. Um dia o Jura (Jurandir), um amigo meu, queria comprar uma corrente daquelas, que mulher faz o que seu namorado quer, quando presenteada. Mário. Quero comprar uma corrente de ouro daquelas grossas, mas não quero gastar muito. Já fui no H.Estern. Deus me livre, lá é muito caro. Levei ele até o Lagartixa. Não deu outra, o pilantra tinha justamente aquela que ele, ou melhor, ela queria. A parada não foi muito cara, saiu por menos que ele imaginava. Corrente no bolso, grana na mão do malandro, sugeri ao Jura que desse uma corrida até a frente do cine Don Pedro II, de onde saia o ônibus 152, Vila Olímpia. Estando dentro do coletivo estávamos a salvo.
Mas o forte da pilantragem do Lagartixa era punguear nos jardins. Seu local preferido era a Rua Augusta, o chiquê dos anos 1960. Ali, ele era especialista em abrir pipocas (Bolsa de vime) das madames que tomavam o ônibus elétrico que trafegava pela Rua mais charmosa daquela época. As "pipocas" tinham quando muito 35 x 18 centímetros. Era só dar uma viradinha naquele fecho de metal e pronto. Ali estava a carteira de couro de crocodilo recheadas de notas. Depois que a carteira mudava de dono, era só puxar a cordinha da campainha do ônibus, e dar o fora. Quando a madame dava por falta da carteira, Lagartixa já estava em outro ponto, esperando mais um trolebus, com mais madames distraídas. Certa vez, quando uma madame se deu conta de que sua bolsa estava aberta e mais leve, avisada por alguém, Lagartixa estava no degrau para descer. A sorte dele é que quem alertou a mulher ficou com medo de apontá-lo. Ai deu tempo de ele descer, se livrando de ser pego e tomar uma surra, o que acontecia com alguém que era flagrado roubando. Mas um dia ele foi pego na Galeria Prestes Maia. Estava ele na escada rolante em direção da Praça do Patriarca, quando uma moça estava com sua bolsa a tiracolo. Não era uma "pipoca" e sim uma bolsa de couro. Lagartixa a sua navalha cortou as tiras da bolsa da moça, mas ficou impossibilitado de sair antes de chegar até a praça devido o número de pessoas que bloqueavam a passagem. Quem estava por trás dele viu e, com ajuda de outros, o segurou sem dar chance de ele escapar. Pegou, mais de um, ano de cadeia na penitenciaria do estado. Saindo de lá, jurou a meu pai (ele era meu primo) se recuperar, no dia em que foi lá em casa com uma charrete vender peixe, uma forma de se mostrar que era uma pessoa que trabalhava. Mas a malandragem estava no seu sangue. Parou de roubar. Aliou-se a uma prostituta que ele adorava, e também estava deixando o bas-fonds, por estar com seu pé de meia quase cheio. Apartamento ela já tinha. Morava em cima do cine Regina na avenida São João. Onde Lagartixa se refugiava, para desabafar, tanto de lamurias, como dar uma boa descarregada "mental", num corpo, a fazer inveja a qualquer miss, que usava os maiôs Catalina. Seu nome, Estella. A ela, ele também jurou que não ia mais roubar. Estava sendo feito ali uma dupla de bom "comportamento". Ela já tinha seu salão de Cabeleireira, na Rua Aurora, e Lagartixa que não tinha profissão fixa foi ser cambista do jogo do bicho na banca do Alfredo Parisi, o banqueiro mais forte da cidade se São Paulo daquele tempo. À noite, ele fazia um trabalho de Bookmaker, Rua Tabapuã esquina da Rua da Ponte (Clodomiro Amazonas) no Itaim. Ali eram feitas apostas clandestinas de corridas de cavalos do Jóquei Clube e também de São Vicente, e das corridas de trote de Vila Guilherme. Foi ali que ele conheceu Nestor, um dos maiores viradores do Jóquei Clube. Ninguém conhecia mais as cocheiras de Vila Hípica do que Nestor. Barbada era com ele mesmo. Lagartixa não se cansava de pagar pinga, sanduíches e cervejas para Nestor. Estava cevando o seu bom informante de barbadas. Até então elas vinham com poules baixas. Mas eram barbadas que não falhavam, vinham na cabeça. Nem placê era preciso arriscar. Joga no duro que é grana na certa, dizia Nestor. Muitas eram poules de dez. Até então Lagartixa nunca tinha ido ao Prado. Mas, a convite de Nestor, ele foi. Chegou às 14 horas já tinha corrido dois páreos. Lagartixa estava abismado com a beleza da estrutura do Jóquei Clube. Fez uma aposta, mais no intuito de se amoldar a um lugar onde nunca tinha ido. Viu aonde ia a nata da sociedade do lado das sociais, e gente mais ou menos na arquibancada do meio e a ralé viciada na última arquibancada. Estando já no ultimo páreo, viu um cara louco para jogar e não tinha dinheiro. Ao ver lagartixa disse que tinha uma barbada, mas estava sem dinheiro. Perguntou a Lagartixa: Quer comprar o meu relógio? Preciso de uma grana, tenho uma barbada imperdível . Como um negociador de primeira linhagem, foi logo dizendo:
– Depende. Se não for coisa cara te compro. Ao ver que o bobo era um Omega Suíço, comprou por dez cruzeiros. Ao chegar no centro da cidade vendeu por 150,00. Era um Omega folheado a ouro. Pelo menos o aro que estava por toda volta do relógio era bem amarelado. Já no apartamento de Estella, comendo a macarronada que sobrou do almoço ele comentou com ela que tinha descoberto uma forma de ganhar dinheiro fácil. Sabendo com quem estava lidando, e com a pulga atrás da orelha, o advertiu: Meu amor, se arrumar encrenca não vou te tirar do enrosco. Vê lá o que vai fazer.
– Estella, é coisa bem honesta. Descobri hoje que no jóquei clube tem gente que precisa de dinheiro para jogar nos cavalos, lá pelos últimos páreos. É nessa hora que os caras estão duros. Vendem o que tem por um dinheirinho qualquer. Hoje mesmo comprei um Omega por 10,00 cruzeiros e vendi no centro, por 150,00.
Na semana seguinte Lagartixa estava no jóquei com um bom dinheiro, a maior parte, emprestado por Estella. Comprou tudo o que tinha direito. Ficou a semana toda vendendo. Pagou a parte da Estella, e ficou com uma grana fantástica. Pronto. Estava ele satisfeito pois estava com o burro na sombra. Já tinha como ganhar dinheiro "honestamente". Num sábado ele foi com dois mil e quinhentos cruzeiros no jóquei. Estava perto do Natal, queria levantar uma nota das maiores. Logo que chegou encontrou Nestor que estava esfuziante: Lagartixa, estou com uma barbada no sétimo páreo. Não é favorito. Mas, vai largar e acabar. Falei com o entrenner (Treinador) e ele me disse para jogar tudo em Nazareno, número 5, no sétimo páreo. Meu, despreza o placê. Joga no duro.
Como até então Nestor não tinha falhado, Lagartixa foi com tudo. Até se esqueceu que tinha ido com uma grana gorda, mais para comprar coisas para revender. Quando chegou a hora do páreo. Nestor e Lagartixa foram ver o canter (apresentação dos animais). Nazareno deu um pique de 200 metros numa velocidade impecável. Nestor deu uma cutucada em Lagartixa. Viu? O bicho esta tinindo. É guichê na certa. Nazareno abriu a pedra com 8,40, por cada 1 cruzeiro.
Ele deve fechar o totalizador com 5,00, disse Nestor. Lagartixa esfregava as mãos. Fica frio dizia Nestor, falei com o J.O, ele me disse que deu aquela injeção de cavalo louco. O entrenner do favorito deu água demais ao seu cavalo, que pesado não vai incomodar, é vitória na certa. O esquema está armado, todo mundo vai ganhar. Quando foi dada a partida para os 2.400 metros, grama seca, estalando, Nazareno estava no bloco intermediário, mas quando entrou na reta oposta Nazareno foi para a ponta e se despediu da parceirada. Entrando na reta final Nazareno estava com cinco corpos de vantagem o que assustou Lagartixa. Nestor está dando muito na vista. Será que não vai dar zebra?
– Que nada, meu. Quando eles forem fazer o exame antidoping, você já estará com a grana no bolso. Nazareno será desclassificado para último lugar. Seu proprietário não levará o prêmio. O treinador será suspenso de seis meses há um ano. Mas também ele estará com os bolsos cheios. Quando faltavam 50 metros para o disco, Nazareno estava com a vitória certa. Mas, não resistindo ao esforço, Nazareno cai fulminado por um colapso cardíaco, sendo ultrapassado pelo que vinha em segundo lugar. Uma tremenda decepção. Lagartixa perdeu tudo o que teria que investir comprando mercadorias que lhe daria um final de ano bastante abonado.
Quando for ao jóquei clube, tome muito cuidado com os viradores. Eles nunca tem aquela informação imperdível.