A nossa Revolução de 32 sempre me despertou curiosidades. No início dos anos 50, aos 10 anos de idade, fui estudar no Seminário Frei Galvão em Guaratinguetá. Entre os meus colegas da época vários eram nascidos em Minas Gerais; outros cariocas e todos eles, invariavelmente, hostilizados pelos de origem paulista. Eram acusados de terem bombardeado Guará, São Paulo e terem matado paulistas que defendiam a Constituição.
Naqueles tempos de seminário, não entendia bem o porquê do ódio, nem dos fatos históricos associados, mas alguns dos mineiros se tornaram meus amigos até os dias de hoje. Anos mais tarde, passando férias no sul de Minas, na casa do amigo José Maduro (Itanhandu – MG), ouvia, atentamente, aos relatos dos parentes e seus conhecidos mais velhos, a respeito das atrocidades cometidas pelos Paulistas, que "queriam se separar do Brasil". Mostraram também o local da concentração de tropas governamentais na região, marchando para reforçar o ataque ao Túnel da Mantiqueira, em Passa Quatro – MG. Na nossa casa, contou uma tia, houve um baile dias antes da partida da tropa e eu ainda dancei com o Dr. Juscelino, médico da Policia de Minas e depois presidente to Brasil.
Com meus 14 anos de idade e exercendo a função de “boy” passava diariamente pela escada rolante da Galeria Prestes Maia, próximo a sua saída no Anhangabaú ficava a sede do MMDC. Às vezes, parava no local, pegava folhetos ou conversava com algum ex-combatente.
A dualidade de opiniões a respeito da Revolução de 32 sempre me fascinou e fez com que eu me tornasse um "pesquisador amador". Comprei livros a respeito, visitei museus e arquivos públicos e boa parte dos sebos foram "vasculhados e garimpados" em São Paulo, Rio de Janeiro e outros lugares na busca por livros e relatos.
A partir dos anos 80 passei a visitar os locais dos combates e me concentrei na "Frente Norte" – região do Túnel da Mantiqueira, Passa Quatro, Cachoeira Paulista, Cruzeiro, Silveiras e outras.
Na boca do Túnel, em contato com os moradores locais, consegui motivá-los a guardarem os objetos encontrados durante as roças e capinagens: cartuchos de balas, cantis, moringas, "matraca incompleta" parte de armas, etc. Nas visitas periódicas, juntava o material que era recolhido por eles e trocava por utensílios domésticos e outros presentes. O material era encaminhado ao escritório do MMDC localizado próximo à Catedral de São Paulo.
Passei diversas vezes através do Túnel da Mantiqueira, extensão de cerca de 1000 m, desativado pela RMV (Rede Mineira de Viação). O Túnel liga São Paulo a Minas Gerais e foi inaugurado por D. Pedro II. Andando com dificuldade entre seus trilhos, na mais absoluta solidão, iluminando o caminhar apenas pela lanterna de mão, ouvindo o ruído das águas que pingam do teto e brotam correndo pelas laterais, parecendo vozes murmurantes em oração pedindo paz. Observando bem ao longe seu final me causava uma sensação: misto de orgulho e esperança. Este Brasil após tantas revoluções, não tem mais motivos de lutas entre irmãos.
Em momentos de incertezas, passeiem pelo Túnel e "ouçam as vozes" que brotam das águas e do sangue ali derramado.
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