Quando tio Juan fez treze anos ganhou macacão, um par de alpargatas e foi trabalhar na oficina mecânica do seu Paschoal, que ficava na Rua do Lavapés, no Cambuci. Este senhor era um italiano que pegava meninos como aprendizes e ensinava-lhes um ofício o qual menino nenhum de nossa casa escapava.
À noite, o tio foi colocado no Liceu de Artes e Ofícios, na Avenida Tiradentes, para aprender, na teoria, aquilo que estava aprendendo na prática. No Liceu fazia a matemática, o desenho, a geometria e, se um dia se formasse, deixaria de ser aprendiz e se tornaria oficial na profissão de mecânico. O trabalho consistia, também, em pequenos serviços como, por exemplo, levar peças prontas e torneadas para os fregueses.
Uma vez, o tio foi entregar uma delas no palacete de um turco, dono de uma daquelas tecelagens que ficavam em torno do Museu do Ipiranga. O palacete ficava na Rua Bom Pastor. Foi quando viu a bolinha de tênis, largada no gramado verde, liso feito um tapete, faiscando por causa do sol forte. Sem pensar duas vezes, rápido feito um raio, apanhou a bolinha. Saiu em marcha lenta, de costas, a bolinha aveludada, macia, acariciando a mão que já começara a ficar áspera e cheia de calos. Ninguém iria tirar dele esta bolinha porque o achado não é roubado, “nem na porta do mercado", caminhava tentando justificar-se com esta frase.
Sabia muito bem – começando desde a Rua do Grito e indo para bem adiante da Rua Luiz Gama, deixando para trás a Rua da Independência – uma coisa era certa: “não há de haver um só menino no Cambuci, nem em toda a várzea do Glicério, que consiga ter uma bolinha destas”, vibrava. Ela era coisa só de ricos, finos e chiques, de gente feito turco, dono de tecelagem, coisa de meninos de casarões!
"- Solo la mire en mis manos", gritou tio Juan quando tentou resistir às investidas, retorcendo-se inteiro no chão daquela oficina, cheia de cavacos, sujo de graxa. Tentou defender-se enquanto teve fôlego, mas seu Paschoal mandou que os outros aprendizes o arrastassem até a serra.
“- Aprenda ragazzo”, bradava seu Paschoal. “- Aprenda que em horário de serviço quem manda é o dono, é o patrão. Abra a mão e me dê essa bolinha que, em horário de serviço, tudo tem dono, tudo é do patrão. E, se não for do dono, então não será de mais ninguém”, finalizou mandando que lhe abrissem sua mão e cortassem a bolinha na serra.
Sujo de graxa, cheio de cavacos, o tio chorou no chão daquela oficina mecânica, apertando restos daquela que tinha sido uma bolinha de tênis sua, por momento tão fugaz, enquanto seu Paschoal esbravejava: "Bolinha de tênis? Isto é coisa para menino rico, fino e chique. Aqueles podem brincar, perder tempo, ficar na vadiagem; Ragazzo, você é pobre, tem que pensar no trabalho, no estudo, na obrigação…”.
Mas, não era o trabalho a libertação? Ou teria outro lado: o da alienação? Revoltado com este outro lado do trabalho, o do Deus-patrão, tio Juan, recusou voltar à oficina. Apanhou, brigou e não voltou mais. Preferiu o castigo que a avó aplicou: "- Trabalhar puxando a carrocinha, feito o burro que diziam que ele seria".
Saia bem cedinho, apregoando, "ajos y cebollas!". Passava e repassava pela rua da nossa casa, chutando pedras, ameaçando e xingando os que ficavam rindo dele, enquanto gritava: "ajos e cebollas!".
– "Juanito es más malo do que la quina!", lamentáva-se a avó vendo-o passar rua abaixo e rua acima, apregoando "ajos y cebollas!". É que a avó tinha um sonho, viúva, sonhava com seus meninos cada um com uma profissão. E Juanito seria um mecânico de mão cheia…
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