A grande final

Neste texto quero reverenciar uma das mais brilhantes conquistas da história do Sport Clube Corinthians Paulista e que certamente será marcada nas páginas do seu livro de ouro, na data de 04 de julho de 2012: a Copa Libertadores da América.<br><br>Parabéns dirigentes, comissão técnica, jogadores, funcionários e torcida pela galhardia e denodo aplicados durante as 14 partidas que levou o clube mais popular do estado a tão almejada vitória.<br><br>Dia 04 de julho de 2012. Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, o velho e tradicional Pacaembu, palco de memoráveis decisões, está prestes a protagonizar mais uma final inédita e empolgante envolvendo Corinthians e Boca Juniors.<br><br>Não passa pela cabeça do Corinthiano mais pessimista qualquer resultado que não seja a vitória de seu time. Marcado por decisões inusitadas, longas filas de espera, por títulos almejados, este clube do povo nunca esteve tão próximo de atingir mais um objetivo na sua longa e gloriosa trajetória.<br><br>Invicto até então na copa Santander, dirigentes, técnico, jogadores e torcida unem-se em um único propósito: a expectativa de libertar-se de uma angústia que tem tirado o sono dos seus milhares de aficionados torcedores.<br><br>Neste momento, ansioso por uma vitória, vejo um filme passar pela minha<br>mente: inesquecíveis viradas como aquela de 1962 pelo campeonato paulista. O Corinthians perdia por 2×0 para o São Paulo, para piorar a situação, o centroavante Nei (pai do irreverente Dinei) sofreu distensão muscular (naquela época, por regulamento do campeonato, não era permitida qualquer substituição de jogadores) e o meia direita Silva foi expulso.<br> <br>Veio o segundo tempo e comandado pelo armador Rafael Chiarella, o Corinthians fez dois dos três gols, virando o placar. As formações das equipes foram estas: Corinthians – Aldo, Amaro, Eduardo, Oreco, Ari, Cássio, Rafael, Manuelzinho, Silva, Nei e Lima. São Paulo – Poy, De Sordi, Bellini, Jurandir, Riberto, Dias, Gonçalo, Faustino, Benê, Prado e Sabino. Benê marcou para o São Paulo aos 13 e 36 minutos do primeiro tempo.<br><br>Marcaram para o Corinthians: Lima, aos 40 minutos do primeiro tempo Cássio, e Nei, respectivamente aos quatro minutos e aos 25 minutos do segundo tempo. Lembro-me da narração brilhante do inesquecível Pedro Luiz e do comentarista Mauro Pinheiro.<br><br>Sucederam-se outras: 10 de março de 1968 – Corinthinas 2×1 Palmeiras – Faltando três minutos para o final da partida, com gols de Ditão e Benê (em pleno domingo de carnaval) o Corinthians virava o placar contra o Palmeiras.

25 de abril de 1971 – Corinthians 4×3 Palmeiras – foi certamente uma das mais estóicas viradas Corinthianas, pois naquele ano o time não realizava uma campanha irregular no Campeonato Paulista, talvez pelo peso de não conquistar nenhum título desde 1954 e o seu adversário era o forte time do Palmeiras, de Leão, Dudu e Ademir da Guia. Aos nove minutos o placar já acusava 2×0 para o time alviverde, depois de um gol aos 34 segundos. Mas o Corinthians voltou com garra para o segundo tempo, empatou em 2×2, tomou o terceiro e virou aos 43 minutos do segundo tempo, naquele que é considerado um dos jogos mais emocionantes da história do clube e do Estádio do Morumbi.<br><br>Rivelino, Adãozinho, Tião e Mirandinha comandaram a virada alvinegra.<br>E o que dizer do sofrimento dos 11 anos de tabu contra o Santos de Pelé? A Fiel não se conteve após ver o Corinthians vencer o Santos por 2×0 em 06 de março de 1968, no Pacaembu. Alguns torcedores invadiram o campo para comemorar.<br><br>A quebra do tabu permitiu que o Corinthians jogasse todas as fichas na conquista do Campeonato Paulista, pois o último título ocorrera no quarto centenário da cidade de São Paulo em 1954. Esteve próximo em 1968, realizando um belo primeiro turno. No entanto, com as mortes prematuras de Eduardo e Lidu, envolvidos em acidente automobilístico, a equipe, abalada pelas mortes dos dois atletas, sucumbiu irremediavelmente naquele ano. Veio à final de 1974 contra o Palmeiras e mais uma vez o gosto amargo da derrota diante do temível rival que ocasionou a saída de Rivelino, o reizinho do parque, para o Fluminense.<br><br>Em 1977, com uma equipe considerada modesta, mas aguerrida, o sonho do tão esperado título foi conquistado. Na noite de 13 de outubro de 1977, na terceira e decisiva partida da série contra a Ponte Preta, Basílio, o pé de anjo, arrancava o grito sufocado na garganta de 89777 torcedores fanáticos, em um jejum de 23 anos sem títulos.<br><br>Os brasileiros de 1990, 1998, 1999, 2005 e 2011 e o mundial de 2000 conquistado em nosso país consolidaram a popular agremiação no cenário futebolístico brasileiro, em uma obstinada perseguição ao tão almejado título que levou aproximadamente 70000 Corinthianos a invadir o Maracanã na vitória por pênaltis sobre o Fluminense em 1976. Mas ainda faltava alguma coisa para a consagração definitiva: A Libertadores.<br><br>O Corinthians esteve bem próximo da final por duas vezes, após montar um verdadeiro esquadrão com craques como Dida, Fabio Luciano, Kleber, Vampeta, Rincon, Luizão, Edilson, Marcelinho e Ricardinho, sucumbiu diante do Palmeiras em 1999 nas quartas de final e em 2000 nas semifinais.<br><br>Agora, mais especificamente em 04 de julho de 2012, o Corinthians vislumbra a possibilidade de acabar mais uma vez com o pesadelo que o persegue desde a primeira edição do torneio. No primeiro jogo da final, no estádio de La Bombonera, empate por um gol, graças à articulação de uma bela roubada de bola do armador Paulinho, do brilhante lançamento de Emerson Sheik e da conclusão primorosa de Romarinho, o Corinthians manteve de pé a esperança de aproximadamente 31 milhões deste fiel “bando de loucos”. <br><br>E é neste cenário que aos quase 63 anos de idade, leonino nascido em 13 de agosto de 1949, Corinthiano desde pequeno, quando ainda havia muitos campos de várzea nos bairros da zona leste, me encontro diante da TV pronto para explodir de alegria e gritar: "é campeão".<br><br>Como nas outras decisões, a do Paulista de 1977 com Basílio e a do Brasileiro de 1990 com Neto e Tupanzinho, o Corinthians possui uma formação de jogadores guerreiros e disciplinados taticamente. Não há nenhum craque na equipe, mas contando com uma defesa sólida, um meio de campo experiente e um ataque que faz os gols suficientes para garantia da vitória, a partida é iniciada.<br><br>Tenho à mesa uma taça de vinho tinto e acompanho os primeiros 15 minutos em um clima de tensão e preocupação. Passes errados, muita briga no meio do campo e “catimba” dos argentinos fazem com que o 0x0 se arraste até o final do primeiro tempo.<br><br>Nas ruas vizinhas há intenso foguetório, talvez prenunciando o que estaria por vir no segundo tempo. Após o apito do árbitro, vejo um Corinthians mais ligado na partida, disposto mesmo a descartar qualquer possibilidade de prorrogação ou disputar através de penalidades máximas.<br><br>Sentindo um Boca Juniors cansado e mantendo a mesma estratégia do primeiro tempo, Emerson Sheik, após cobrança de falta de Alex, cabeçada de Jorge Henrique e o derradeiro passe de calcanhar do meia Danilo, finaliza inapelavelmente para a meta argentina, para delírio de quase quarenta mil torcedores presentes no estádio.<br><br>Não demorou muito para se ter a certeza de que desta vez nada iria tirar o título tão almejado das mãos dos guerreiros de Tite. Um passe precipitado do zagueiro Schiavi deixou Emerson Sheik novamente frente a frente com o goleiro Sebastián Sosa. Ele invadiu a área argentina com uma velocidade incrível e mandou a bola inapelavelmente para a rede adversária. O que se viu nos minutos finais foi o desânimo dos jogadores “boquenses” e a segurança de uma conquista inédita por parte dos Corinthianos que apenas tocaram a bola com a harmonia de uma orquestra e por pouco não dilatou o placar.<br> <br>Fim de jogo e a euforia se espalhou por todo o estádio, ganhando as ruas adjacentes ao Pacaembu, invadindo as avenidas e alamedas de nossa cidade, prolongando-se por outros municípios de São Paulo, estendendo-se por outros estados do Brasil e certamente sendo noticiário dos principais veículos da imprensa escrita e falada em todos os cantos do mundo.<br><br>É inexplicável como uma equipe de futebol consegue aglutinar em um só coração, vários tipos de raça ou camada social e perpetuar novas gerações de torcedores, mesmo sabendo que a busca por títulos sempre vem à base de muito sacrifício e suor.<br><br>Assim é você Corinthians, uma paixão sem limites, uma nação de alvinegros que supera expectativas, um “bando de loucos” que não teme distâncias ou fronteiras, simplesmente para ver e vibrar com seus ídolos em um apoteótico grito de campeão.<br><br><br>E-mail: [email protected]