Aos 7 anos, no primeiro ano escolar, ainda na Parada Inglesa, me descobri interessado no amor. Eram sensações que surgiam independentemente de minha vontade em relação às meninas que me atraiam fortemente. Uma vontade enorme de estar próximo e querer compartilhar meus sentimentos e falar sobre a delicadeza do ser feminino e sua beleza. Mas, sentir era uma coisa. Fazer era outra bem distinta.
Era um sentimento não correspondido, pois nessa altura da vida, meninos e meninas se colocam como quase inimigos, de gangues diferentes. Por mais que tentasse alguma aproximação, acabava sendo rejeitado por toda a turma das “Luluzinhas”. Aproximar-se era uma declaração de guerra. Ao contrário da maioria dos meninos, como na turma do Bolinha, desejava ter acesso a turma da Luluzinha para desfrutar e conhecer as coisas boas do amor como: pegar na mão, roubar um beijo; coisas que nós víamos acontecer nos filmes como “Verão de 42” e outros.
A coisa não vingou, mas ficou em mim aquela sensação de querer mais. Mais adiante, fiz uma nova tentativa de aproximação, desta vez com outra menina. Já sentia um desconforto dentro de mim no sentido de expor meus sentimentos em relação a um ser do outro sexo. Sentia vontade de expressar sobre meus sentimentos, mas não tinha o domínio da língua… Gostava de ler e sentia certa satisfação ao encontrar alguns poemas que tocavam no assunto do amor e das cenas de carícias.
Acabei encontrando um poema que vinha de encontro a tudo que entendia, sentia e tentava dizer… Mas, não conseguia. Passando a limpo em papel almaço, a poesia foi enviada para alguém que fazia meu coração pulsar mais forte e sentir calafrios quando passava perto de mim. Tive o cuidado de colocar em um envelope e fiz chegar até a pessoa. Dias depois, recebia de volta o envelope com uma cartinha anexa:
“Prezado Sr. Rui Barbosa,
Gostei muito de sua poesia, pena que o Sr. esta sendo copiado.
Fulana de Tal.”
O céu caiu sobre minha cabeça. A farsa fora descoberta e eu longe de ser um poeta. Aquilo caiu fundo. Fui desmascarado como pretenso poeta… Durante algum tempo fiquei mudo em relação ao mundo exterior. Alguns anos se passaram até descobrir, em um livro, o ditado de um sábio francês que dizia: “Comecei copiando, mas um dia acabei criando…”
Ao entrar na adolescência, me peguei cantarolando uma música de carnaval passando o dia com ela na cabeça a ponto de dar continuidade na letra inventando uma sequência. Acabei me dando conta de que fizera rimas interessantes para quem nunca tinha conseguido fazer. Eram rimas “chulas”. Percebia que havia uma facilidade em mudar as frases aproveitando para rimar ao final de cada uma. A partir de então, sempre estava fazendo troça de alguma coisa com rimas. Neste momento, aconteceu a grande revelação: percebi que além de ler também gostava de escrever e que isso não era lá tão difícil.
Agora, se iria agradar ao mundo exterior, isso era outro problema. Assim, ao receber aquela cacetada do Rui Barbosa, resolvi encarar aquilo como um limão e fazer uma limonada, e escrever deixou de ser um parto para virar sentimento de alegria e, às vezes, desabafo. Venho rabiscando desde então. Fiz poesias para muitas amadas. Nunca soube se elas gostaram ou não, pois acabaram esquecidas. Fiz poesias, acrósticos, letras de músicas para algumas namoradas. Acho que deram pouca importância, pois logo foram esquecidas. Em geral, as mulheres reclamam dos homens de serem pouco românticos. Nossa reclamação também procede que o que escrevemos logo é esquecido.
E-mail: [email protected]