A guerreira que veio de longe

A pessoa mais importante em minha vida. Posso parecer prepotente ao afirmar que quem não conheceu a Dona Piedade Josefa, esposa do Sr. Américo Alves, primeiro proprietário da Padaria Pombal (hoje não mais existente) e um dos pioneiros moradores da esquina da Av. das Cerejeiras e Rua dos Samurais, perdeu a oportunidade de conhecer uma das criaturas mais humana, humilde, alegre (e porque não dizer, fantástica) que existiu por aqui. Não pelo fato dessa senhora casualmente ser a minha saudosa genitora, mas, porque ela era muito querida por todos que a conheceu.

Quando partiu de Portugal, com destino ao Brasil, por volta de 1939, trouxe consigo seus quatro filhos: Manoel com 6 anos, Carmina com 4 anos, José com 2 anos e o pequeno João Américo com 8 meses de idade. A viagem foi penosa e demorada, em um vapor (navio como se dizia), viajava na 3ª classe, meu pai já estava a espera deles aqui no Brasil, tentando ganhar a vida no novo continente que prometia muito. Ela, para amenizar a falta de provimentos, chegou a trabalhar com os garotos na cozinha do navio conseguindo uma melhor alimentação para os pequenos.

Aqui chegando, foi morar no Bairro da Penha, na Rua Carlos Meira, onde sua casinha dava fundos para a casa de um tio, irmão de meu pai, de nome Manoel e onde, no espaço entre as casas, eles formaram uma pequena chácara na qual minha mãe ajudava a tirar o sustento da família. Era uma casa simples, os móveis eram feitos pelo meu pai, que era carpinteiro e aproveitava os caixotes de madeira para confeccionar os poucos móveis existentes.

Meu pai trabalhava na antiga CMTC, na Rua Celso Garcia, trabalhava de sol a sol e, muitas vezes, chegava tarde, pois fazia horas extras muitas vezes ele ia para o serviço a pé para guardar o dinheiro da condução. Ela era verdureira, perambulava pela comunidade empurrando um carrinho de madeira feito pelo meu pai, carregado de verduras que colhia de sua chácara, onde os meninos a ajudavam a plantar e capinar. Quando lhe faltava alguma verdura ela tomava o bonde com destino ao Mercadão Central, o mesmo mercado existente até hoje, e, de lá, retornava com cestos imensos na cabeça, equilibrados por uma "rodilha" de pano. Os motorneiros (como eram chamados os condutores dos bondes) guardavam os primeiros bancos para a Dona Piedade e não deixavam que ninguém os ocupassem, antes dela chegar com sua carga preciosa, ajudavam-na a descarregar e partiam para a Penha. Ela era muito querida e respeitada por todos eles, pois tinha sempre uma palavra cordial tratando-os como da família.

Oito anos se passaram desde a sua chegada ao Brasil, ela ficou grávida e continuou a trabalhar. Em uma manhã de novembro, quando estava vendendo suas verduras, em uma das ruas próxima a Praça Central da Penha de França, sentiu que a hora do parto havia chegado, pediu que uma freguesa guardasse seu carrinho e voltou para casa. Nesse mesmo dia eu nasci, em meio à luta diária de minha mãe, à ausência justificada de meu pai, o vai vem da parteira (nasci em casa), o burburinho de meus irmãos que durante muito tempo ajudaram a tomar conta de mim enquanto ela estava fora cumprindo a sua nobre profissão de verdureira.

É com orgulho que eu digo que sou filha dela, minha índole afoita em construir, em criar coisas, em não me sentir derrotada por maior que seja a luta, veio dessa nobre senhora, que não foi princesa, nem madame, muito menos letrada, sabia ler e escrever, porque aprendeu sozinha. Voltarei a falar dela em outra oportunidade, pois ela foi uma guerreira incontestável. Sua benção querida, mãe, onde você estiver. Fique com Deus, você merece.

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