“Esta é uma das histórias que aconteceu comigo. Primeiro foi a Suzy, quando eu tinha lambreta. Depois…depois nada”. Não sei quem foi Suzy e nunca tive uma lambreta. Mas, existe sim uma história comigo e um certo “Cadillac'”.
Bairro do “Bixiga”, meados dos anos 60, estava eu trabalhando na mercearia de meu “tio” Jabra Chaebo – que Deus o tenha em sua Glória – lá na velha e saudosa Rua Santo Antonio. O comércio varejista ficava bem em frente à Rua Conselheiro Ramalho e, sempre à noite, por volta das 7h (ou um pouco antes), eu o via passar lentamente e com uma imponência sem igual, desfilava por entre os automóveis comuns da época ofuscando a todos com a sua beleza e majestade.
Sim, era ele: o “Cadillac Fleetwood” do conde Francisco Matarazzo Junior que, por vezes, fazia aquele itinerário, sempre no mesmo horário e com britânica pontualidade. Extasiava-me admirá-lo, mesmo que por poucos momentos, e rezava para que o trânsito se congestionasse, para que tivesse mais tempo de contemplar, com os olhos, aquela maravilha mecânica. Era uma maravilha americana, com um grande motor de muitos "hp's", câmbio automático, direção hidráulica e vidros acionados eletricamente. Bancos de couro, inteiriços à frente, na cor azul, contrastando com o azul clássico metálico da carroceria e vidros verdes. Pneus aro de quinze polegadas com faixas brancas, delgadas e reluzentes calotas com o brasão “Cadillac”. No banco traseiro, podia-se notar o conforto que desfrutava o seu nobre ocupante, o próprio conde “Chiquinho”. Ao volante, assumia a posição um motorista com austera vestimenta, quepe e luvas, que fazia o veículo rolar pelos paralelepípedos da antiga rua, onde só se percebia o roçar dos pneus com o solo, em cadência ritmada.
O tio Jabra sabia de minha paixão pelo carro e sempre me dizia: “- Quer ter um igual? Estude e trabalhe, ou, faça como o conde, herde uma fortuna!” Nisso, ele tinha razão. Pois, para se ter uma máquina como aquela só tendo muito dinheiro. Mas, eu me contentava só em olhar. Certa noite, já dispensado de minhas obrigações na mercearia, estava eu no balcão da farmácia do Álvaro, que ficava quase em frente à mercearia e, como de costume, ali também eu prestava alguns serviços auxiliares no “despachamento” de fregueses ou algumas entregas em domicílio. Quando, eis que freia bem em frente à farmácia o belo Cadillac. Veio conduzido só pelo garboso motorista do conde, que estava pelas imediações resolvendo alguns assuntos pessoais e passou pela farmácia para comprar alguns medicamentos. Não perdi a oportunidade e comecei a inquiri-lo sobre o carro. Queria saber tudo sobre ele e, ao mesmo tempo, eu mesmo dava as respostas as minhas perguntas. “- Acho que não preciso dizer nada sobre o carro. Você já sabe sobre ele…” – disse-me atônito o motorista que, notando a minha ansiedade e expectativa, aproximou-me da enorme máquina e passou a detalhar mais precisamente cada pedaço do veículo.
Inebriado de alegria, acompanhei cada explicação do gentil e paciente motorista, que começou a apresentação pelo painel de instrumentos. E, que painel! Depois, foi a vez do interior, com seus bancos e carpetes, iluminação interna, volante de direção, alavanca de câmbio e o grafismo da marca, nos painéis das portas, com as maçanetas e chaves de acionamento dos vidros, cinzeiros e travas. O “gran finale” ficou por conta do motor que, assim que o capô foi levantado, uma vertigem ótica me tonteou. Era uma maravilha de um belo “motorzão” de oito cilindros e seus componentes todos bem posicionados, como em trabalho de arrumação exemplar. Até o abafador do carburador que, de tão grande, parecia uma frigideira enorme destas que por aqui usamos para fazer uma deliciosa moqueca de peixe. O motorista admirou-se de meu conhecimento mecânico e quis saber como um garoto de minha idade já tinha tanto conhecimento mecânico. Disse-lhe que havia tido bons professores. Um deles foi o meu tio Rafael que, muitas vezes, à porta de nossa casa, brincávamos de adivinhar as marcas, modelos, ano de fabricação, tipo de motor e câmbio dos carros que por ali passavam. Era uma sabatina geral. Se errasse, tomava “cascudo”. Se acertasse, recebia parabéns.
Terminada as apresentações feitas pelo simpático motorista, assume agora o volante e, com breve aceno, despede-se e faz suave arrancada, não antes de acender toda a parafernália luminária do “rabo de peixe”, que encandeia a rua e ofusca a vista de quem olha, principalmente quando freia. Antes, prometeu-me que viria buscar-me para dar umas voltas nas redondezas. Coisa que não aconteceu. O conde era muito ciumento de sua preciosidade. E eu fiquei só na vontade.
Ao longe, vejo a majestosa máquina seguir o seu rumo. Cá com os meus botões, faço-me um juramento: “- Ainda terei um Cadillac. Ah, vou ter sim…” Passados alguns anos e já com a idade de dezoito anos, adquiri, finalmente, o meu “Cadillac”. Não era um “Fleetwood” como o do conde. Era um “Eldorado”, 1952, conversível, na cor branca, com bancos bicolores em azul claro e branco e capota de lona branca. O preço? Uma bagatela de Cr$ 2.000,00 – dois mil cruzeiros -, resultado de minhas economias guardadas sob o colchão. Serviu para a curtição da minha turma de colégio e alguns namoros mais assanhados, mas, tive de vender por não ter carteira de motorista e, também, por não dispor de uma garagem.
Meu Cadillac veio bem a calhar com a música do Roberto, mas, nunca precisei levá-lo a uma oficina para reparos e nunca encontrei um “Calhambeque” para trocar. Hoje, só tenho um Ford Landau 1980, que nada fica a dever para um Cadillac, pois o custo-benefício é mais em conta. Além dele, tenho outros exemplares. Só que em escala menor e enfeitam a minha estante.
Quanto ao Cadillac do conde está em mãos de um particular que o encontrou estacionado em um posto de gasolina e o adquiriu através de uma troca. Gastou alguns muitos reais para restaurá-lo e, hoje, desfila orgulhoso pelas ruas de São Paulo. Do conde, todos sabem que faleceu em 1977. Do seu impecável motorista, não tenho notícias. Espero que esteja desfrutando de uma boa aposentadoria e relembrando os bons tempos. Eu continuo apaixonado por automóveis e espero um dia completar a minha coleção de clássicos colecionáveis e ter um Cadillac de verdade.
P.S.: A marca “Cadillac” é uma homenagem do povo americano, ao fundador de Detroit – Michigan = “Laumet Antoine de La Mothe Cadillac”.
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