Resgate

Sábado à noite. Depois de uma semana cansativa toca o telefone: “- Sofri um desastre!” Que susto! Era tudo o que não queríamos ouvir. “- Onde você está?” “- Aqui na Avenida, esperando o Resgate. Venha para cá, por favor!”

Minha amiga mora aqui em São Paulo, sogra no Mato Grosso, mãe em Recife. “- Venha, estou com meu filho!” Imediatamente nos deslocamos para o local. “- Que acidente sem sentido!”, comentou meu marido.

Hora errada para discutir. Presenciamos a cena da mãe e do filho, muito abatidos, sentados no chão. Não havia ferimentos graves aparentes. Assim mesmo, a cena era muito forte para uma sexta-feira à noite. Quase ao mesmo tempo em que tentávamos entender o que havia acontecido, chegou o carro do Resgate. Vermelho, imponente. Desceram dois homens, motorista e paramédico. Enquanto falavam sobre o ocorrido, fizeram movimentos com os braços e pernas da mãe e do filho, examinaram a cabeça, os olhos e agiam como se os conhecessem de longa data.

“- Onde estavam indo? O que aconteceu? Dói? Está com tontura? E você, está com enjôo? Fiquem calmos, está tudo bem! Vamos ao hospital”. Antes que percebessem, estavam na maca, imobilizados e protegidos. “- Ela pode ir comigo?” Perguntou minha amiga. “- Não, aqui na viatura só é permitido o transporte de pacientes” “- Por favor, deixe-a ir”, insistiu. “- Está bem. Não pode, mas vou deixar”.

Entrei no carro, angustiada como estava, mas também curiosa. Reparei nos equipamentos, nos medicamentos em tudo. Preocupada com o garoto perguntei se ele estava bem. “- Estou com muito sono!” O paramédico recomendou: “- Converse com a mãe, deixe que ela fale bastante, pergunte… ela não deve dormir. Do menino eu cuido”. Enquanto mantinha minha amiga acordada escutava o paramédico: “- Qual matéria você gosta mais? Por quê? E a professora… e os colegas… você tem irmãos…? como é o nome deles?”, com muito carinho. Um momento especial, apesar das circunstâncias. Eram completos estranhos, mas ao mesmo tempo tão chegados à família, naquela hora.

Percorremos as ruas e não longe dali o hospital nos recebeu como mais um caso entre muitos que precisavam de cuidados urgentes. Tal a correria, poderia passar por um filme baseado na área médica. Infelizmente, não era ficção. Os rapazes levaram os pacientes para dentro e o paramédico pegou na mão da minha amiga: “- Fique calma, tudo ficará bem!”

Pronto socorro adentro, podíamos ver que, nesse caso, ele tinha mesmo razão. Tantas emergências, tantas coisas tristes. Passado um tempo, tempo suficiente para a chegada de outros pares de paramédicos, que removeram várias macas para o hospital, olhei para a porta e vi o bombeiro tão especial que atendeu nosso caso. “- Trouxe o guarda chuva que vocês esqueceram na viatura”.

Ia comentar que depois de tudo que eles haviam feito pela mãe e pelo filho, ainda estavam tendo a gentileza de devolver o guarda chuva. Não deu tempo para falar, pois, em uma fração de segundo, ele alçou as lindas asas brancas e voltou para o carro do Resgate.

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