Joanna Rossi Guaranha, minha mãe, nasceu em Agudos e com um ano de idade perdeu meu avô Francisco Guaranha, que trabalhava na companhia Paulista de trens.
No feriado (8 de agosto de 1910) seu chefe veio buscá-lo para retirar tijolos de um poço à beira da estação de Agudos. Ele foi até a cozinha e disse para minha avó Nina que não estava com vontade de ir. Ela então falou: “É melhor você ir senão pode perder o emprego”.
Minha avó fazia macarrão em casa, e nos feriados minhas tias iam todas almoçar lá. De repente, chegou um garoto que era gago para lhe dar uma notícia, mas não conseguiu, pois, ao se sentar no baú que tinha na sala, a tampa afundou com ele e então não conseguiu falar mais nada. Em meio a essa situação, veio minha tia Rosinha e a levou para sua casa, o que foi pior, pois meu avô estava estirado em cima da mesa.
Minha avó desmaiou. Aconteceu que quando meu avô havia tirado todos os tijolos, subiu para sair do poço, mas veio um trem e fechou esse poço. Seu chefe, com medo, soltou a corda e meu avô mesmo com um braço para fora morreu sufocado.
Meus avôs tinham duas “datas” de terreno ao lado da estação, em frente a casa havia duas mangueiras centenárias e no terreno meu avô plantava abacaxis e criava galinhas. Com sua morte, minha avó ficou com o seguro e pensão. Então, comprou cinco máquinas de costura e passou a dar aulas e também fazia fardas para guardas. Como viuvou aos 30 anos, ficou sozinha com cinco filhos para criar, todos estudaram no Grupo Escolar de Agudos (tempo integral). Então, meu tio Constantino aconselhou que ela fosse para as fazendas de café, em Chentenblé e também levar meu bisavô.
Lá ela se casou contra a vontade dos filhos, perdeu a pensão, parou de pagar os impostos da casa em Agudos e o novo marido batia em seus filhos para eles trabalharem na lavoura. Então, foi construída uma escola para os italianos que não sabiam ler e minha mãe, Joanna, se interessou pelo professor. Ele deixou escrito na lousa que queria falar com ela.
Minha avó Nina não sabia ler e pensou que era lição de casa. Quando minha mãe contou para minha avó ela não consentiu por ser ele moreno. Minha mãe insistiu e foi feito o casamento. Minha avó com raiva só fez sopa para os convidados. Meu pai resolveu então vir para São Paulo e minha mãe foi trabalhar na Santa Casa de auxiliar de enfermagem, isso em 1936. Moravam na Rua Santa Isabel e depois foram para o Itaim Bibi.
Nasceu eu e mais dois irmãos (minhas irmãs mais velhas nasceram em Lins). Após, viemos para a Zona Leste, onde minha mãe e minhas irmãs tiveram que trabalhar, pois meu pai ficou internado no Hospital das Clínicas, quase cego, e os médicos não descobriram a doença. O olho esquerdo de meu pai ficou azul, e ele enxergava só com o olho direito. Mas, mesmo assim estudou música e dava aulas em casa. Minha mãe também perdeu a casa de Agudos e junto com minhas irmãs trabalhou para comprar uma casinha.
Criou nove filhos engomando camisas. Meu pai faleceu em 1966 e minha mãe aos 101 anos, agora em 2010. Não pôde mais ver minha avó Nina e ao morrer ficou chamando por ela. Bem, a história daria um livro, desde a vinda dos meus avôs da Itália, (minha avó Nina era de Veneza, meu avô da Calábria e meus avôs paternos de Portugal).
Obrigado por me ouvir, Eunice.
E-mail: [email protected]