Batizado em Alphaville

Há vinte e oito anos conhecemos uma linda gruta em Alphaville, Barueri e decidimos que faríamos o batizado da nossa filha Giovanna lá. Tinha a lateral toda em pedra, de onde emergiam plantas semelhante samambaias e por onde escorriam filetes de água, ao som de lindas músicas clássicas. Ficamos deslumbrados com o local! Os bancos eram dispostos à direita, de forma quase circular.<br><br>Imaginamos que seria uma cerimônia linda e inesquecível, uma vez que grande parte disso já estava garantida pela beleza do lugar. <br><br>Chegado o dia, nos reunimos com nossos convidados e mais os das outras crianças que seriam batizadas junto com a nossa filha e nos preparamos para o início da celebração. O que não esperávamos é que o padre faria a preleção abordando o tema, pasmem política! <br><br>Discursou por mais de uma hora, ninguém aguentava mais ficar em pé (eu estava com dó da madrinha da Gio que era bem magrinha e, apesar de cansada, não queria que a ajudássemos a segurar a nenê). Foi uma decepção aquilo tudo, mas tentamos aproveitar e encarar com bom humor. Afinal, o que poderíamos fazer?<br><br>Fora da gruta, havia um lindo e amplo espaço com mesas grandes e bancos de alvenaria, que convidavam a um piquenique (Lembrei de contar essa estória após ler uma aqui no site sobre convescote).<br><br>Mandei fazer bolos de três deliciosos sabores: de creme russo, de laranja embebida em uma calda maravilhosa e de coco com leite condensado. Quem os fez foi nossa saudosa amiga Janete. Fez também salgadinhos deliciosos e minha sogra levou carne louca e molho de carne moída com rodelinhas de salsicha, que foi muito elogiado. <br><br>Tudo estava muito gostoso! Ninguém estava querendo saber se era ou não brega fazer e/ou participar de eventos daquele tipo; todos estavam curtindo muito! De repente, começou um vento muito frio e o meu marido = levou a nossa “filhota” para o carro, trocou sua roupinha por um macacão com capuz, para protegê-la do vento. Mas, já era tarde: ela desenvolveu uma otite que, apesar de ser acompanhada e tratada pelo pediatra, durante quase toda a semana, evoluiu para uma terrível meningite bacteriana. Ficamos apavorados quando o Dr. Cláudio nos disse, no sábado cedo, em seu consultório no Tatuapé: “Vou aplicar essa injeção e vocês deverão levá-la imediatamente ao Emílio Ribas! Vejam bem: ao Emílio Ribas e a nenhum outro hospital!”.<br><br>Meu marido dirigiu pela Radial Leste, basicamente com o "piloto automático" ativado, pois conhecia aquela via até de olhos fechados! Fizemos todo o percurso chorando muito, quase em desespero. A Giovanna tinha apenas cinco meses e meio! Quando chegamos, os médicos nos disseram que era para rezarmos para acertarem com o antibiótico que administrariam a ela, de imediato.<br><br>Falaram que não dava para saber que tipo de meningite era a dela, mas que deveríamos torcer para que tivessem dado o remédio adequado. Chorávamos tanto que eles vieram até nós para pedir que tentássemos nos acalmar, pois estávamos contagiando todo o hospital.<br><br>Constataram que se tratava de meningite bacteriana, que no caso dela não era contagiosa, mas que ela teria de ficar internada sem receber visitas. Podíamos vê-la, pelo vidro da janelinha na porta do quarto que ela dividia com várias outras crianças, duas vezes por semana, por quinze minutos. Lá estava ela, loira, linda, com aqueles olhos azuis nos olhando sem entender o que estava acontecendo e não podíamos nem segurá-la para lhe dar conforto e também nos confortarmos.<br><br>Rasparam o lado direito de sua cabecinha para colocar soro com os medicamentos e seus bracinhos e perninhas ficavam amarrados à cama, para que ela não arrancasse os fios. Providência que consideramos inútil, pois ela era e estava tão calminha, tão inerte, tão abatida que creio que não faria tal coisa.<br><br>Recebíamos mensagens de todo lado, de todas as pessoas, até mesmo que quem nem conhecíamos, todas dizendo que estavam rezando pela sua completa cura. Nunca vimos tanta solidariedade, tanta união! Até hoje rezo e agradeço, pedindo a Deus que abençoe a todos que pediram pelo seu restabelecimento.<br><br>Tivemos a informação de que a corrente de orações, tanto neste plano, quanto no outro era tamanha que espantava a todos! <br><br>Eram meados de julho e fazia muito frio. Comprávamos meias para a Gio e pedíamos que colocassem também nas outras crianças do quarto, pois não seria justo vê-la com os pezinhos aquecidos e as outras crianças, não. Comprávamos de dezenas de pares. No início, eram só meinhas brancas, bonitinhas, mas depois já adquiríamos o que encontrávamos: brancas, vinho, azul, preta… Elas não eram devolvidas e nem lavadas… Usavam uma vez e jogavam fora… Ela ficou dezessete dias internada e quando finalmente recebemos a notícia de alta, preparei sua malinha com lindas roupinhas e no dia seguinte, cedinho, lá chegamos para buscar o nosso bebê. <br><br>De repente, nossos olhos foram atraídos para o quadro onde constava o nome dos pacientes e seu "status" e, para nossa surpresa e desespero, seu nome constava como estado grave. Não entendíamos mais nada. Disseram que ela havia sofrido convulsões e que quase morrera! Que estavam fazendo de tudo para salvá-la! Imaginem o nosso desespero, a nossa dor! Graças a Deus ela se recuperou o neuro nos disse que não ficaria nenhuma sequela, que podíamos ficar sossegados. Mesmo assim, decorridos seis meses fomos à Beneficência Portuguesa onde esse neuro atendia e ela passou por novos testes e ele confirmou que estava tudo bem.<br><br>Passados muitos anos, soubemos por amigos do outro plano que enfim estavam autorizados a nos revelar o porquê da reviravolta no caso da nossa filha, quando era para ter alta: nos disseram que agora poderiam falar, pois já tínhamos a certeza de que tudo estava bem com ela e que não tomaríamos nenhuma atitude contra as responsáveis: na hora da punção, da coleta de líquor (retirado para a contagem de bactérias) que determinaria que estava tudo bem, as "moças de branco" estavam conversando e se distraíram, comprometendo o procedimento, o que resultou em graves convulsões! <br><br>Não sou médica, não entendo disso, mas achei coerência no que nos foi dito. A médica chefe do hospital, na época, nos disse que não deveríamos nunca culpar o pediatra pela evolução da doença, pois ele havia tomado todos os cuidados e feito todos os testes de praxe para detecção da meningite, mas que em crianças de até seis meses era muito normal a otite evoluir para meningite. Graças a Deus ela ficou bem e se transformou em uma linda, geniosa, inteligente e adorável mulher!<br><br>Esse texto é em homenagem a todos que nos ajudaram e rezaram pela nossa Giovanna.<br><br><br>E-mail: [email protected]