Alguém citou a Cartilha Caminho Suave e tive necessidade de voltar com meus sabores de infância… Como me esqueci de citá-la? A minha Cartilha, amiga do dia a dia, da minha infância. Tive o privilégio de estudar meus dois primeiros anos de Grupo Escolar com a autora da cartilha, dona Branca Alves de Lima, mulher esguia, elegante, sempre penteada impecavelmente, com dois coques de tranças grossas, um de cada lado, abaixo das orelhas, que eram enfeitadas ora com brincos de pérolas, ora com lindas esmeraldas, sempre de “tayer”, preto ou azul marinho, blusas brancas com rendas, pareciam flocos de algodão doce. Determinada e muito dedicada, doce, tinha um carinho especial pelos seus pequenos, ensinava com muito amor. <br><br>Quando a saudade bateu muito forte, fui até a editora onde ela morava, já se passara 33 anos. No casarão antigo ali no bairro da Liberdade encontrei, com 85 anos, uma senhora ainda esguia e doce, de cabelos pelos ombros, feliz em me ver e saber que não a esqueci perguntou pela minha amiga Fatima Ahmadi Ali e sua irmã Maria, que foram suas alunas também. Contei que Fatima era diretora da revista Nova da Abril e ela ficou muito feliz em saber, conversamos muito, me confessou que estava muito triste e desanimada, pois o MEC, tinha modificado por completo o método do ensino e condenou a Cartilha Caminho Suave a ficar no esquecimento.<br><br>Senti uma profunda tristeza em sua voz. Na sala onde me recebeu, uma sala de jantar muito antiga, havia um quadro na parede e como eu elogiei a pintura ela me contou que foi Clarinha, sua irmã quem pintou, (lembram da Clarinha da Cartilha?) com muita emoção disse que estava ali por pouco tempo, pois a editora estava mal das pernas… Despedimos-nos e a sensação que eu tive foi de um adeus recompensado pela lembrança do sabor da infância. Branca Alves de Lima deixou saudades.<br><br>Depois, estudei com o livro Seleta Escolar, de Maximo de Moura Santos, Livraria Franscisco Alves, o qual tenho até hoje guardado, onde tinha uma lição em versos:<br> <br>O balanço<br><br>A Laurita no balanço<br>anda de lá para cá<br>Sem ao menos um descanso<br>à divertir-se ela está…<br><br>No chão, Pedrinho, sentado<br>acompanha o movimento.<br>Espera todo ansiado<br>até chegar seu momento.<br><br>"Isto vai mal!" pensa o cão<br>"Com certeza a brincadeira<br>vai dar com gente no chão,<br>vai provocar choradeira.<br><br>Coisa assim eu nunca vi!<br>O! que menina sem mêdo!<br>É melhor sair daqui…<br>Não gosto deste brinquedo!"<br><br><br>Leio sempre que possível, vejo virar cada página, minhas mãos marcadas pela idade, não acredito que tanto tempo passou… Parece que foi ontem.<br><br>Bem, por hoje é só. Voltarei logo, prometo.<br><br><br>E-mail: [email protected]