Mas, voltando a casa, após um ano de moradia em 1953, meu pai foi comprando o resto das janelas e portas e ele mesmo instalando, inclusive os forros que eram chamados de estuque, um madeiramento telado e preenchido de massa por cima e reboco por baixo, parecendo laje de concreto.<br><br>Após mais um ano começou a rebocar a casa por dentro e por fora, na cozinha e como não tinha o dinheiro suficiente para comprar azulejo ele colocou a chamada barra lisa que substituía o azulejo, era uma massa forte e queimada em uma altura de 1,50 m e espessura de 1 cm, quase de um azulejo, e eu me lembro bem que, depois de pronto, foi pintado de azul e era muito resistente e higiênico.<br><br>O piso da cozinha, da área e banheiro e o puxadinho era todo de vermelhão, ou seja, um cimentado forte e liso, "queimado" e nele, ainda fresco, jogava-se um pó vermelho de marca xadrez e passava-se a colher de pedreiro que deixava o piso lisinho e vermelho brilhante. Era fácil de lavar e encerar.<br><br>No outro ano foi colocado, no quarto e na sala, piso de taco e para isso a base já estava concretada e bruta, onde recebeu uma massa fina e forte e nela fixado o taco e bem colocado pelo pedreiro, pois não era para raspar devido ao custo, mas meus pais, com ajuda de outros, escolheram bem os tacos e, no verso dele, na parte que tinha o piche com pedrisco ainda batiam aqueles pregos próprios para aquele tipo de piso de madeira com cabeça em forma de gancho para não soltar do concreto depois de colocado.<br><br>Lembro-me bem que para ficar bonito tinham que passar uma palha de aço e depois a cera Parquetina e depois de seco passava-se um pano de lã fixado em um peso de ferro fundido com cabo e ia esfregando no taco, em um movimento de vai e vem constante até dar o brilho, realmente ficava bonito. E assim, a cada ano, iam comprando algo mais para a casa, depois veio a pintura, mais móveis, o fogão a carvão foi trocado por um à gás, isso já nos anos 1960.<br><br>Nosso quintal era todo cercado por murões e arame farpado e com uma planta que dava para ser aparada, chamada de cerca viva, hibisco rosa. Duas vezes por ano, ou mais, tinha que ser cortada com tesoura de jardineiro que dava a cerca uma aparência bonita e bem fechada, o portão era de madeira.<br><br>Na frente da casa, minha mãe cuidava do belo jardim e, nos fundos, a famosa horta, tinha verdura e legumes o ano todo, além de um pé de limão rosa, mamão, uvaia ou uvalha, uma frutinha amarela que parecia pitanga, de pouca duração, e um pé de pêssego que, por sinal, durou pouco, as formigas saúva encarregavam-se de comer todas as folhas e, como tinha formigueiro naquela época em nossa rua, faziam montes de terra (esses formigueiros eram combatidos pela prefeitura que vinham com homens uniformizados e com um fole, parecia uma sanfona, com o qual injetavam produtos químicos nos buracos dos formigueiros).<br><br>O interessante era como meu pai fazia com o lixo doméstico. Lá nos fundos do quintal, ele abria um buraco no chão de mais ou menos oitenta centímetros de diâmetro por um metro e meio de profundidade ou até dar para tirar a terra do fundo. Todo o lixo produzido em casa ia para esse buraco até encher, depois de lotado, abria-se outro ao lado desse, em uma distância de um metro, e a terra era espalhada na horta, pelo quintal e um pouco em cima do lixo do outro buraco e repetia-se o processo de colocar o lixo no buraco novo, quando este enchia, tirara-se o lixo do buraco anterior e espalhava pelo quintal na parte dos fundos, aí era terrível o cheiro, mas apenas por um dia, como não tínhamos vizinhos, a gente suportava, mas as verduras cresciam além do normal. E, assim sucessivamente, de um buraco para outro se revezavam no lixo, muitas vezes ajudei nesse trabalho.<br><br>A partir de 1965, já começou a passar lixeiro em nossa rua, uma vez por semana, e o lixo era colocado em latas e tambores. Os lixeiros jogavam o conteúdo das latas no caminhão aberto e depois devolviam o balde, ora jogando, ora de qualquer jeito que, depois de algum tempo, tinha que trocar o recipiente de lixo e sem contar que, muitas vezes, os cachorros viravam as latas, até que nos anos 80 vieram os sacos de lixo e melhorou a forma de coleta, com caminhão fechado, pois os primeiros eram abertos e de longe já sabíamos que o lixeiro estava chegando, pelo cheiro.<br><br>Na horta de nosso quintal predominava cenoura, rabanete, beterraba, alface, couve, almeirão, salsa e cebolinha, às vezes milho, e em outra parte chuchu que subia até na cerca e ia para o mato ao lado de casa.<br><br>Durante muitos anos, creio de 1968 a 1985, tinha uma pequena parreira de uva rosada mais ou menos uns 6 m² e em uma altura de 2 m, pois podíamos andar por baixo. Era incrível a produção, tínhamos que dar aos outros, de tanto que carregava, juntava muitas moscas se amadurecessem muito.<br><br>Também na década de 1950, tínhamos criação de galinhas, poucas, só para consumo próprio e por poucos anos. Ela nos supria de carne e ovos e, em certa época, uma pequena criação de coelho, cerca de meia dúzia, que eu acabei matando, dando um tipo de frutinha vermelha do mato que os intoxicaram e mataram.<br><br>Também tínhamos, nos fundos da casa, uma fossa de profundidade 8 m que durou muitos anos e, quando meu pai ampliou a casa, mudou o poço para fora do puxadinho e conservou o sarilho. Nessa época, eu também ajudava meus pais a puxar água, isso pelos anos 1965, mas, logo em seguida, ele comprou as famosas bombas Rymer que bombeava água para uma caixa instalada dentro do forro da casa, até chuveiro de balde foi instalado, que maravilha, parecia um chuveiro mesmo, só que tínhamos que prever o esvaziamento do balde e, para isso, empurrava o mesmo para cima para sentir se estava pesado ou não. A água era aberta por uma alavanca e o balde sustentado por uma corda presa em uma roldana e na parede. No inverno esquentávamos a água em uma panela e misturávamos com outra fria e pronto… Um banho gostoso. No verão era mais fácil: só encher com água fria mesmo. <br><br>Devido a esse poço, a fossa foi desativada e enchida com a terra do poço novo, isso para não contaminá-lo, pois estava muito perto e a fossa nova foi feita na frente da casa, onde tinha um jardim, mas ela foi coberta com as plantas sobre a laje da fossa, ninguém sabia que ali tinha uma fossa para completar de encher de terra o poço velho. A terra era retirada dos barrancos da nossa rua, a terra era farta, inclusive do nosso terreno, que tinha leve caída para os fundos. Meu pai, aos poucos, nivelou o terreno com terra extraída da própria rua e de pequenos barrancos.<br><br>Nos anos 1980 chegou o esgoto na rua, assim como água encanada, e com isso, fechamos a fossa e em cima dela continua o jardim que temos até hoje, depois veio o telefone, antes já tinha vindo o asfalto 1968, e nos anos 1995, começou a aparecer TV a cabo, computador, celular e tantas outras coisas de alta tecnologia. De repente tudo aquilo virou saudade. Hoje em dia é só apertar botões que tudo vem, tudo funciona, tudo acontece.<br><br>Toda essa evolução acompanhei desde criança do mesmo lugar, seguindo passo a passo a transformação de um lugarejo afastado, hoje é uma extensão do Morumbi, com toda infra-estrutura que um bairro deve ter como duas estações do Metropolitano, como Estação Vila das Belezas e Estação Giovanni Gronchi, Cartório, CEU, muitos prédios e muitas escolas e um grande comércio diversificado, porém, com um problema crucial que são os congestionamentos na porta de casa nos horários de pico: de manhã e a tarde.<br><br>Passados quase 60 anos, ainda estou na mesma casa, porém reformada e ampliada, com itens de tecnologia moderna. Meus pais já faleceram, ele em 2007 e ela em 1982, e uma nova geração: meu casal de filhos, sabem dar valor ao passado dos avôs, hoje, aquela cozinha de parede com barra lisa é meu escritório de engenharia e o quintal possui uma edícula e lavanderias e uma área de churrasqueira, nada que lembre o passado na prática, mas na mente sempre deslumbro o que passamos.<br><br>O poço, mesmo com a chegada da água encanada, foi conservado para uso de emergência durante muitos anos, creio que até 1990, porém, com o crescimento do bairro, muitos vizinhos e novos vizinhos transformaram o poço em fossa, isso alarmou todos os moradores inclusive nós, onde meu vizinho fez o mesmo, o poço virou fossa e a contaminação do lençol freático era eminente.<br><br>E creio que muita gente ainda paga a conta de esgoto sem usar o esgoto da rua, pois ao mudar-se para uma dessas casas antigas não sabem para onde vai a descarga do banheiro, a água do chuveiro e pias e tanques, nem as autoridades sabem.<br><br>Neste ano de 2012 e já há alguns anos, devido ao crescimento demográfico e a ocupação grande do solo, não existe mais loteamento horizontal, somente condomínios e os antigos lugarejos, vilas, cortiços estão sendo demolidos e dando lugar a prédios residenciais e comerciais, por isso, quem viu e viveu, guarda na memória, quem não viu nem viveu, só nas histórias e fotografias.<br><br><br>E-mail: [email protected]