São Paulo boêmio

Rua Aurora. Uma luz vermelha descorada em uma bola fosca de vidro leitoso na caliça de uma parede. No alto, um anúncio, bar. Rua dos Timbíras, ali, outra placa semi-apagada, outro bar. Sempre a mesma coisa. Uma noite um bar, muitas noites, muitos bares. É o encantamento noturno dos bares rasteiros e baratos da boca. E no meio de tudo isso, mulheres ilusórias de uma noite de devaneio só. Aurora, Vitória, Efigênia Andradas, Gusmão, Triunfo, Mauá, Limeira, Caxias, Rio Branco ocultam os muitos inferninhos todos parecidos com os Cabarés de Pigalle no subúrbio pobre de Paris. <br><br>Aqui nos arredores dos pardieiros em ruínas é o lugar onde só existem à noite. São vultos esquecidos parecidos como os avejões que saíram das trevas do medo. Nas ruas, circulam pessoas que a gente nunca viu durante o dia. Surgem da noite e ficam rondando de botequim em botequim. As criaturas que desfilam nas calçadas pelas travessas mal iluminadas dos becos escuros e pardacentos parecem todos saírem dos desenhos fantasmagóricos dos personagens de Drácula; são seres apocalípticos como os cavaleiros da noite, mandracas do feitiço, criaturas esquecidas que Albrecht Dürer cinzelou no seu bronze luzidio? Ou são apenas imagens distorcidas semelhantes aos vultos dos gnomos delirantes dos contos noturnos de Ernest Hoffman, o escritor alemão? <br><br>Seriam seres como lâmias, os demônios devoradores de almas, os filhos das trevas, surgidos no espaço das névoas e que vivem escondidos debaixo das marquises das esquinas e dos viadutos, aceirando-se pelos espaços soturnos no entorno da Estação da Luz? Talvez sejam apenas vultos disformes, descoloridos, fruto da imaginação. São delírios de uma alegoria da alma boêmia dos quarteirões bizarros da boca. Porém, não é nada disso. É apenas uma boa gente que trabalha durante o dia pela cidade afora e vêm, à noite, beber cerveja e ouvir música nas canções do Vanzolini e do Nelson Gonçalves, nos bares boêmios e baratos da noite paulistana. É gente como a gente, de costumes pacíficos e profissões variadas; são poetas, jornalistas, fotógrafos, músicos, bancários, escriturários, vendedores, caixeiros viajantes, propagandistas, floristas, todos são pessoas de uma suave docilidade ao trabalho e ao método; gente que tem hora certa para tudo; hora de trabalhar e ganhar dinheiro, hora de gastar dinheiro, hora de ser sério, hora de sorrir e se divertir nos bares rasteiros e baratos de São Paulo. <br><br>Na Rua dos Gusmões há um bar. De longe, já se ouve o burburinho de vozes distorcidas. Dentro, mesas pequenas, quadradas, entre divisões de sarrafo, impostura de madeira nas paredes até a altura de um homem normal. Em cima do teto há uma pintura na cal esponjada do desenho da figura de um demônio em forma de morcego com asas abertas. E no centro do botequim um balcão pintado de branco um homem moreno, em mangas de camisa, com cara de tango argentino prepara as beberagens do uísque falsificado. Em uma mesa forrada de linóleo marrom um homem com cara de ganso de aldeia toca uma gaita. Seus olhos estão distantes como sua alma. Parece um visionário procurando dentro da cerveja espumante o vulto da Eloisa, sua amante desvairada, sempre ausente. <br><br>Do outro lado da rua, bar. Ouve-se ao longo da calçada o som de uma vitrola. Lirismo romântico de dor de cotovelo. É a música do Antonio Maria rodando e rolando na noite vazia. “Ninguém me ama… Ninguém me quer… Ninguém me chama de meu amor… E a vida passa e eu sem ninguém… E quem me abraça não me quer bem… Vim pela noite ao longo de fracasso em fracasso… E hoje descrente de tudo me resta o cansaço… Cansaço da vida, cansaço de mim… Velhice chegando e eu chegando ao fim…” E de outro lado, no botequim dos alto falantes presentes, ouve-se também as músicas de Tom Jobim e Vinício de Moraes e as notas musicais vão morrendo dentro de outras notas, que o som de outra vitrola de outro bar ao lado vai também tocando. <br><br>Rua do Triunfo outro bar. Em uma das mesas há um casalzinho feliz, esquecendo o mundo. Na porta, um homem com cara de empresário falido espreme entre os dentes um charuto Havana. No ar, um cheiro nauseante e rançoso de manteiga e fermento. Nas mesas homens de expressões tristes, lambendo a espuma do colarinho branco da loura que escorre do copo barato, imitação do cristal. Outra vez música. É o Nelson Gonçalves soltando a voz no plangente violão… Boêmia! <br><br>Ali perto, outro bar. Então, o que é feito do velho mote da boa boemia paulistana? Bebida, mulher e canção? A bebida está ali, sobre a mesa de tampo rústico; a mulher também está lá, sentada com um amigo ou amante rindo junto à mesa, mas a canção partiu, fugiu, acabou, morreu nos bares sujos e baratos da boca. Em uma mesa de linóleo marrom um grupo de reservistas de primeira classe ocupa uma mesa e preocupa tudo e a todos. Um nativo de olheiras de tango, escuta a vitrola tocar Ronda. Sai de dentro do bar um homem todo de negro, de barbas, com um lenço franjado na cabeça, parece um corsário saído do século XVII. Uma aspereza de algazarra e “bebericagem” à porta de outro bar.<br><br>Rua Mauá. Parece uma farândola, uma súcia de menestréis maltrapilhos de plantão na porta. Botequins. Em cada botequim uma mulher no balcão. Em cada mulher no balcão uma cara de quiromante. Pó de arroz e “rouge”. Mas, naquela hora traiçoeira, enviesada, sinuosa com os caminhos pérfidos, os olhos percorrem os becos silenciosos atrás da moça de programa da Rua dos Andradas. Ali, todas são de programa. Uma gaze flutua presa pelo lado de trás de um chapelinho que ela usa na cabeça. Sobre a luz amarela entre as prateleiras de vinhos e queijos baratos ela aparece afável com um sorriso de escárnio nos lábios carnosos. É uma mariposa da noite. Traz, no pescoço, uma echarpe vermelha deixando transparecer o decote sinuoso sobre os seios magníficos. Seu olhar ardente arrebata, fascina e encanta, queima, destrói. Ela permanece por alguns instantes em atitude de repto, olhando o cliente bêbado em volta da mesa de taças esparramadas da cerveja e do vinho barato. <br><br>Avenida São João. Ouve-se, à distância, o ruído dos bondes em um constante vai e vem. No ar, uma música de Elis Regina muito gemida, sobre a luz amarela de um inferninho na Rua Barão de Limeira. Em frente um bar, com outros homens debruçados sobre as mesas, em mangas de camisa, com os bigodes brancos da espuma dando lambidelas na loira gelada. <br><br>Na Rua do Triunfo, passando sobre o lodo preto escorrido de pedra torta e molhada pela garoa fininha, uma mulher cambaleia em “zig-zag”, procurando se equilibrar para não cair. Na rua, outro bar. Mas para quê? Sempre a mesma coisa um bar, uma noite, uma cerveja. Melancolia do chope, da mulher que se foi. Melancolia da noite. Noite boêmia. Ah! À noite. Lá em cima, nas nuvens escuras, essas mesmas nuvens que estão dependuradas sobre os bares rasteiros de São Paulo são que cavalgam os espíritos etílicos com sua coroa de cevada, seu cetro de lúpulo e seu vaso de grés, que deixa escorrer a espuma branca, semelhante à garoa fininha que cai agora sobre o céu paulistano em volta das ruas estreitas dos bares soturnos e baratos da boca do lixo.<br><br><br>E-mail: [email protected]