O trem parou na estação

Estamos na década de 60, mas precisamente no mês de Janeiro, tendo como cenário o bairro de Santana, zona norte de SP, que viu nascer como eu uma molecada, hoje, rapazes e moças. Santana, bairro cativante, bairro de lindas histórias e lugar de aspecto bucólico onde as pessoas passeiam despreocupadas pelas calmas ruas e alamedas Floridas. Pouco trânsito, é tempo de férias, o domingo de sol, último do mês prometeria muito para um passeio especial.<br><br>Nossa turma era constituída de “boys” e “girls” praticamente da mesma idade, 20 anos mais ou menos. Aflorava na pele as emoções que a juventude nos proporciona, parecia até mentira que há poucos anos éramos alunos escolares do saudoso Buenos Aires, grupo que nos ensinou as primeiras letras.<br><br>Turma, esta, reunia moradores das imediações da Matriz de Santana, igreja que nos recebia todos os domingos para a missa das 8h, rito obrigatório a nós que fomos educados para seguir os ensinamentos cristãos de nossos pais.<br><br>E o domingo estava encantador. Um trem, às 10h, pararia na estação Santana. Heitor deu a ideia de fazer um piquenique no Horto Florestal. Todos foram unânimes em acatar a decisão, principalmente eu, que teria a oportunidade de estar perto de Ana Maria, a “girl” dos meus sonhos. Teria a chance de declarar uma paixão escondida. Eu que andava deveras romântico, pois tinha assistido no outro domingo no cine Ipiranga, o filme “Férias de Amor” com a bela Kin Novak que era cópia fiel da Ana que estava balançando as minhas estruturas.<br><br>Quase 10h o trem despontaria nas proximidades do Carandiru e seu apito intermitente avisaria que a Estação Santana logo seria alcançada para a alegria da moçada que se acotovelava na plataforma, ansiosos para subir nos vagões. Tinham parado de cair as brasas que eram expelidas pela Maria Fumaça, que era movida a carvão. Tudo valia esse doce sacrifício. Mamãe Izabel prepararia um delicioso lanche para o passeio.<br><br>O trem parou na estação e os vagões receberiam a moçada ruidosamente ante o olhar severo dos cobradores que exigiram os bilhetes. José, um rapaz sapeca, tentaria enganar, porém, não obteria sucesso. Era o segundo vagão e, no meio da algazarra dos rapazes, lá estava ela: Ana Maria, a moça dos meus sonhos. Linda, meiga, olhos verdes, meu jovem coração batia aceleradamente e para colorir este vagão um violão surgiria e eu, um propenso candidato a cantor, entoaria uma linda canção do Elvis. Era o encanto pela aquela garota.<br><br>O trem partiria da estação, a Voluntários da Pátria, a Alfredo Pujol, os dormentes eram ultrapassados e as paisagens eram mostradas no percurso onde o verde predominava. O vagão dos meus sonhos estava ali, com a presença dessa “girl” e na metade do trajeto em uma curva no bairro de Santa Terezinha apareceria a velha igrejinha que nos abençoaria.<br><br>O Horto Florestal era coisa de cinema: seus bosques, lagos onde o verde dava as suas cartas, era toque de romantismo, a natureza sorria e eu não via a hora de passear de mãos dadas com a pretensa amada.<br><br>O dia passaria tão depressa, o último trem, de volta às 17h nos esperaria para nos devolver ao lugar de origem.<br><br>Passeou-se nos bosques, jardins, lagos. Aquele encanto não aconteceria para o meu desapontamento. Ana Maria nem me dera bola, preferiu ficar com outro rapaz. Meu ser então ficou com um misto de melancolia e tristeza na volta. Voltamos e na estação Santana, por ironia, uma música vindo não sei de onde dizia: “O piquenique foi bom mais a volta é que foi tão triste. O trem amor não parou na minha estação…”.<br><br><br>E-mail: [email protected]