Reencontros pela Cidade II – Dr. Flávio

Fiquei na dúvida por causa da camisa com grandes estampas coloridas que não combinava com o sujeito sério e austero que eu conhecia. Mas, com aquele jeitão de andar, quase dois metros de altura e pelo menos uns 120 quilos, só poderia mesmo ser o Dr. Flávio que caminhava a minha frente pela calçada da Rua Peixoto Gomide.<br><br>Até atrasei o passo para não alcançá-lo porque não estava a fim de conversar com um sujeito genioso e de pavio curto, que tinha tido atrito com várias pessoas durante o tempo que prestou consultoria para empresa em que eu trabalhava.<br><br>Quando ele parou junto à faixa de pedestres, esperando o sinal para atravessar, tentei passar despercebido pelas suas costas, mas ele me viu e veio me cumprimentar. Começamos a conversar, ele me convidou para um café em uma padaria próxima e só quando nos despedimos é que percebi que nosso papo tinha durado quase uma hora. Fora do trabalho Dr. Flávio era muito agradável, parecia até ser outra pessoa.<br><br>No dia seguinte, ao lhe enviar um e-mail com um número de telefone que ele havia me pedido, percebi que em um dos lados do seu cartão de visitas estava estampado o rosto de um palhaço. Fiquei curioso, e no mesmo e-mail aproveitei para perguntar o que significava aquele palhaço.<br><br>Ele respondeu o e-mail agradecendo pela informação e pedindo desculpas pelo engano, pois deveria ter me dado seu cartão profissional e que o palhaço era ele, numa foto tirada em um evento.<br><br>Eu até tinha notado que tal palhaço era gordo (parecia o Arrelia ou Torresmo com muitos quilos a mais) e fiquei imaginando o que levaria o sisudo Dr. Flávio se deixar fotografar com o rosto pintado de branco, peruca azul e uma bola vermelha no nariz. Como ele não deu nenhuma explicação, minha curiosidade só aumentou.<br><br>Na segunda-feira, chegando ao trabalho, comentei que tinha encontrado o Dr. Flávio. “- Bem feito, quem mandou sair de casa?” – brincou o Marcio. “- Aposto que ele estava brigando com alguém na rua” – disse o Fernando. “- Me diz onde foi que você encontrou o "Trator" (*) para eu não passar nem perto” – completou o Assis.<br><br>Por coincidência, Seu Achilles, que trabalhava em outro andar, estava de passagem pela nossa sala e ouviu quando eu comentei a respeito do cartão com uma foto com o rosto maquiado como palhaço: “- Vocês estão falando do Flavião? Minha mulher e minha filha que costuram as fantasias da turma dele.”<br><br>Agora não era só eu que estava curioso. “- E para que ele se fantasia de palhaço, Seu Achilles?” – perguntamos. “- Ele tem um grupo de voluntários que distribui remédios, brinquedos e roupas em creches, orfanatos e hospitais infantis e nessas ocasiões eles fazem apresentações de música e brincadeiras. Eu já fui algumas vezes para ajudar e morri de rir com as palhaçadas do Flavião. A criançada o adora”.<br><br>Fiquei surpreso, mas nem tanto, porque já sabia que o Dr. Flavio era diferente fora do trabalho, mas eu queria poder descrever a cara dos meus colegas… <br><br>Diziam que Dr. Flávio até gostava de ser conhecido como "Trator", porque esse era o mesmo apelido do então ministro das comunicações Sergio Motta, que reconhecidamente era muito competente. O que ele não sabia era que a maioria se referia a ele como "Trator Desgovernado"…<br><br><br>E-mail: [email protected]