Aventura de quatro paulistanos

Há muito tempo que as névoas do passado já levaram, quando vivemos esta aventura. Éramos quatro amigos, cujas idades pouco variavam. Certa ocasião, no mês de férias, resolvemos acampar e caçar na Serra do Mar, próximo ao litoral sul, região ainda inóspita e pouca habitada. O destino escolhido foi a pequena cidade de Ana Dias e a programação era para uma semana.

Fomos de trem, cujo local de embarque foi na cidade de Embu-Guaçu e meu pai nos levou até lá.

Naquele tempo, não havia restrições quanto ao porte de armas. Levamos duas espingardas calibre 22 e farta munição, além de facões, víveres e outros. Chegamos quanto já anoitecia e chovia levemente.

Da pequena estação, após nos informarem, dirigimo-nos à base da montanha onde havia um riacho e uma cabana abandonada, o que veio de encontro ao que almejávamos.

Caminhamos por cerca de uma hora, ou um pouco mais. Noite escura e sem lua. Todos nós tínhamos faroletes e vestíamos capas de chuva.

Lá chegamos! Um casebre velho, mas que dava para "quebrar o galho".

Mochilas descarregadas, mantas no chão como se colchões fossem espiriteiras a álcool para preparar o jantar e um pequeno lampião a querosene.

“- Vá pegar água no riachinho!” Juca, o caçula do grupo: “Pô, só porque sou o menor vocês ficam mandando!”… “Vá logo, Juca!”… “Não enche!”

Foi e, instantes depois, veio com a vasilha cheia de água. Até estranhamos a rapidez, mas colocamos a água na panela e deixamos. Depois, ao verificarmos, vimos que o arroz estava meio avermelhado. Achamos esquisito e perguntamos: “- Juca, onde você pegou essa água?” Ele: “- Tava chovendo e peguei na primeira poça d'água que vi…”

Carlos= Atleta da seleção juvenil de vôlei.
Migué Salafa= Soldado – recém dado baixa da Aeronáutica.
Cideme= “Bon vivant”
Juca= “Bon vivant”

Aí, dia seguinte, ou outro, não me recordo, mas tempo bom, fomos escalar a "montanha".

Carlos – o Atleta. Cai e senta, ainda na metade da subida, dizendo que não tinha mais condições físicas e ficaria nos aguardando para retornarmos à base.

Migué Salafa – o Soldado. Foi até onde deu e arriou e ficou aguardando também.

Juca e Cideme – pareciam alpinistas, foram em frente e atingiram o topo, e o Juca: “- Pô Cideme pensei que nós iríamos “pifar” primeiro”, mas o Atleta e o Soldado abriram o bicão e riu.

Descemos, até com um sorriso discreto de orgulho pela façanha. Dia seguinte, começamos a praticar tiro ao alvo em uma lata colocada em cima de uma pedra. E assim ficávamos o dia inteiro, fazendo churrascos de linguiça e petiscando salames e alimentos enlatados que levamos.

Aí, cismamos de derrubar a copa de uma pequena árvore a tiros e como havíamos levado muita munição, não houve problema. Percebemos que passaram algumas pessoas pela trilha e nos olharam e foram embora sem nada falarem.

Dia seguinte, amanhecendo e ainda sonolentos, fomos acordados por uma força policial, fortemente armada. Se susto matasse, já estaríamos mortos.

O tenente, perguntou: “- Quem são vocês e o que fazem aqui?” E pediu os documentos. Explicamos que estávamos de férias e viemos acampar e caçar.

Percebeu que não éramos bandidos e nem guerrilheiros e nos explicou que foram avisar que havia um bando fortemente armado e dando tiros a torto e a direito. Recomendou-nos que guardássemos as armas e não mais as utilizássemos, pois poderíamos ferir alguém. Não falou mais nada e foi embora com a "tropa" policial.

Depois desse susto, nunca mais…

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