A Cinelândia

Há alguns dias atrás, lendo as histórias contadas pelas pessoas que escrevem para este site, deparei com a escrita pelo Sr. Alfred Delatti, sobre o Cine Paissandu e acabei voltando muitos anos no tempo e recordando dos belos cinemas que São Paulo já teve.

Belos cinemas, uma bela cidade, num lugar que ficou conhecido como a Cinelândia de São Paulo. É uma região grande, que começava na Rua Conselheiro Crispiniano, onde havia o Cine Marrocos, passava pelo Largo do Paissandu, onde havia o próprio Cine Paissandu, o Olido, o Majestic… Ia subindo pela Rua Dom Jose de Barros onde havia o Cine Dom Jose. Subindo mais um pouco, já na Avenida Ipiranga,havia três dos maiores e melhores cinemas da cidade: o Marabá, o Ipiranga e um pouco mais para frente o Copan, no térreo do edifício do mesmo nome.

Continuando pela São João, tínhamos o Metro do lado esquerdo e um pouco mais a frente o Cine Regina. Entrando a esquerda no Largo do Arouche, o Cine Arouche, que muitas vezes tinha em suas telas as “Avant Premier” dos filmes que passariam na cidade.

Seguindo pela Duque de Caxias e entrando à esquerda, novamente na São João, havia o grandioso Comodoro Cinerama, em frente ao Cinespacial, um cinema pequeno mas diferente de todos, pois era redondo, com três telas e onde o espectador sentasse sempre tinha visão total da tela, sem nenhuma cabeça à sua frente.

Todos esses cinemas me trazem boas recordações, pois fazem parte da minha vida e, como tenho certeza, da vida de muitos paulistanos, tanto nascidos aqui como os paulistanos de coração que fizeram desta cidade a sua vida.

A antiga Cinelândia não era famosa somente pelos seus cinemas, mas também porque ali no Largo do Paissandu ficava o Bar dos Artistas, que na verdade não era só um bar que era dos artistas, mas a toda a esquina do Largo com a Avenida São João e a Rua Dom José de Barros. Não lembro agora se era de segunda ou terça-feira, mas em um desses dias essa região ficava lotada de artistas do rádio, cinema, televisão, mas principalmente artistas de circo, que ali se encontravam para trocar experiências, reviver antigas amizades, procurar emprego, enfim, viver a vida do modo especial que as pessoas desse meio vivem.

Havia outros cinemas, não tão grandes, mas que nem por isso eram menos importantes, como o Cine Barão na Rua Barão de Itapetininga e tantos outros. De cada um posso contar uma ou outra história que trago guardada na memória e que sempre é um grande prazer de relembrar, como quando também assisti ao filme Romeu e Julieta no Paissandu, Mogli, o Calhambeque Mágico, Aeroporto, Inferno na Torre e Terremoto no Comodoro.

Como já havia comentado em outra história, assisti o Exorcista no Ipiranga e um dos filmes da série do 007 – o Espião que me amava, no Copan. Esse filme me traz duas boas recordações, uma engraçada e outra romântica. A engraçada é que assisti o filme duas ou três vezes antes de ir com alguns amigos no cinema e, tendo decorado boa parte das cenas, ia dizendo as falas antes que elas acontecessem; algo do tipo "e se acontecesse isso ou aquilo" e. . . Acontecia. Acabei estragando o filme de muita gente, mas me diverti bastante. A outra recordação é que esse filme foi o primeiro que assisti com a minha namorada, que é a pessoa com quem estou casado há 33 anos e esse filme ainda é o "nosso filme".

Outra lembrança foi quando, com duas amigas, fui assistir ao filme Sem Destino, no Cine Barão. Após o término do filme, estávamos todos um pouco nervosos e alterados por causa do final, quando entramos em uma lanchonete na Rua Sete de Abril para comer alguma coisa antes de irmos embora; e aí, fomos abordados por um homem bêbado que veio mexer com as meninas, e só não houve uma briga por conta da turma do deixa disso.

Eu e minha esposa, na época de namorados e mesmo depois de casados, dávamos longas caminhadas a pé por toda essa região, às vezes só para saber o que estava passando e escolher com calma o filme que iríamos assistir. Numa dessas caminhadas, acabamos indo assistir "O Último Tango e Paris" no Cine Regina. Esse filme fez grande sucesso na época, mas, sinceramente, não conseguimos assistir até o fim, saímos no meio do filme e até hoje não sei como acaba.

Uma série que não perdíamos um filme, foi a do Aeroporto, trazia muita ação e emoção, sempre entremeada com algum romance. Assistimos à pré-estreia do Porkis e acho que poucas vezes ri tanto como nesse filme. Outra pré-estreia que fomos, embora com um pé atrás, foi "As duas faces do Zorro", outra comédia que também nos fez rir do começo ao fim do filme, pois o Zorro ficou doente e precisou da ajuda do seu irmão gêmeo para se passar por ele enquanto não se recuperasse. O problema que o irmão era gay e não suportava se vestir de preto, então vinha de verde limão, dourado, cor-de-rosa, entre tantas outras e sempre muito berrantes.

É muito bom ficar recordando sobre esse tempo… Poderia escrever algumas páginas sobre isso, mas a leitura acabaria ficando cansativa e este não é o caso. Hoje, a maioria desses cinemas não existe mais, recentemente uma dessas grandes salas foi reinaugurada, com toda a beleza do seu antigo predecessor, o Cine Marabá. Espero que este cinema possa trazer às pessoas que hoje vão lá assistir a um filme as boas recordações que tenho desse e de todos os outros cinemas que havia à sua volta, que fazem parte da minha vida, como também, da vida de uma grande parte das pessoas que moram nesta bela cidade.

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