As razões do coração a razão desconhece

Desde que nasci nós nos conhecíamos. Tínhamos mais ou menos a mesma idade. Ele era uma pessoa que nunca existiu sem mim e eu sem ele. Sabe aqueles camaradas que a gente sempre conheceu? Aqueles que parecem que nasceram junto com a gente? Então, ele era um desses. Hoje, infelizmente ele já não está mais entre nós. O nome dele era Adauto, mais conhecido por Sabiá. Quando a gente era jovem, entre 20 e 21 anos, ele morava na Rua Prof. Marcondes Domingues, lá na Parada Inglesa, e eu morava na Cap. Sérvio Caldas, perto da Plínio Pasqui, onde morava a Carmem, o grande amor da vida dele. Só que ela, tinha um comportamento meio que “heterodoxo”, digamos assim, e ele estava meio desconfiado disso.<br><br>Um belo dia, ele me encontrou em uma dessas esquinas da vida, e me pegando pelo ombro disse-me:<br><br>“- Marcão, eu preciso de um favor seu. Só posso pedir isso a você porque nós somos que nem irmãos.<br>- Peça então. – Repondi<br>- Marcão, – ele disse – eu acho que a Carmem está me traindo e vivo agoniado nessa incerteza. Como ela mora perto da sua casa eu queria que você ficasse de olho nela.<br>- Pô, Adauto, eu não posso fazer isso, meu. Tira-me dessa, por favor.<br>- Não, não tiro não. Em você eu confio e sei que nunca vai me trair. Pela nossa amizade, você me deve essa.”<br><br>Pois é, não tive como sair dessa e já que tinha de fazer o papel de espião e dedo duro, resolvi fazer do melhor jeito possível.<br><br>Não deu outra, não demorou muito e eu dei o maior flagrante nela com o Moacyr, um camarada conhecido nosso. Vi os dois, deixei claro que tinha visto e que ia contar. A Carmem não falou nada, o Moa até tentou argumentar, mas não adiantou, eu estava inflexível.<br><br>Demorei alguns dias, pensando como ia fazer aquilo. Não queria magoar o Adauto e sabia do amor dele por ela, até que, uns três dias depois, cheguei a conclusão de que o melhor jeito era o jeito direto.<br><br>Fui até a casa dele, bati palmas e quando ele veio me atender, fui logo falando:<br><br>“- É Adauto, tenho uma má notícia para te dar…”<br><br>Antes mesmo de completar a frase ele me interrompeu, me deu um abraço e disse:<br><br>“- Você é mesmo um grande amigo, não poderia esperar mais nada de alguém como você. Mas vamos fazer o seguinte, o mundo já está tão cheio de más notícias que nem eu e nem você precisamos de mais uma. Faz o seguinte, vamos lá na “Padoca” do Toninho, tomar umas “cervas” que é melhor.”<br><br>E lá fomos nós dois conversando sobre um monte de coisas, menos sobre a Carmem, com quem ele ainda namorou por mais uns tempos. Depois ela separou-se dele, ele casou-se com a Lídia de quem também se separou e anos depois passou a viver com a mulher que o acompanhou até o fim dos seus dias, dando-lhe amor, respeito, alegria e uma filha linda.<br><br><br>E-mail: [email protected]