O tripeiro do Itaim

Toda tarde ouvia se aquele apito estridente. Era um apito que circulava pelos lábios da gente onde se dava uma variedade de apitos que mais pareciam ênfases musicais. Era comum qualquer criança ter aquele apito. Mas quem fazia o uso dele e, muito bem feito, era o tripeiro. Para os mais jovens. O que é um tripeiro?
– Nada mais do que um vendedor de miúdos bovinos. E tinha somente aquele. Pelo menos no bairro do Itaim. Quando ele vinha assoprando aquele apito, as mulheres já estavam com vasilhames no portão a espera que ele virasse a rua da sua casa. Era uma carroça fechada. Assim tipo baú. Por dentro toda aluminizada, com total higiene. Quando ele parava era um tal de escolher fígado, língua ou coração de boi. Aquela balancinha de segurar na mão com uma haste horizontal, onde corria a cilindro que dava o peso, era fiel para com os consumidores. Mas, esse atrevido, que está escrevendo, chegou a duvidar que aquela balança não roubasse minha mãe. Dona Laura, dona Elvira e outras vizinhas. O tripeiro então mandou que eu fosse ao armazém de secos e molhados que tinha bem perto para conferir. E não é que fui! Chegando lá o peso estava direitinho.
– e ai garoto, conferiu?
– Sim conferi, Olha está quase igual. Faltaram poucas gramas. Risos para todo lado, e minha mãe, não deixou por menos. Isso é bom para não bancar o metido.
Logo depois que o tripeiro ia embora, lá vinha à charrete do Chico (Piqui) rodas de peneus, era o Peixeiro. Peixe fresquinho chegado naquele mesmo dia de Santos. Todos os dias pela manhã o Nesão descia a Via Anchieta, recém inaugurada, para pegar na ponta da praia o peixe nosso de cada dia. Tinha vendedor de todo jeito. Mas ao contrário do tripeiro e do peixeiro, o verdureiro vinha pela manhã. Era um português, que não falava direito a palavra verdura. A fonética dele dava a entender Froii. Ele dizia Verruroi. Logo que ele entrava na Rua do Porto, saindo da João Cachoeira, eu já gritava. Mãe, o Froii ta chegando. Mas o que dava gosto mesmo era o sonho que um Russo vendia. Era uma cara de quase dois metros de altura, mãos grandes, igual a do Oberdã Catani. Quem fazia era a mulher dele, também da estranja. Era uma ruiva alta mais parecia um homem de saia. Mas, que mãos tinha aquela mulher para fazer sonho. O sonho era grande cortado no meio em sentido horizontal com creme dentro. Não tinha criança que não ficava com o beiço lambuzado. Um dia o casal recebeu a visita de ladrões, que antes de roubar tudo, mataram a pauladas casal que estava dormindo. Acho que se ele acorda-se, na certa, sozinho dava conta de quantos tivessem, pois era muito forte. Por isso foram mortos.