Quando garoto eu morava em uma localidade um pouco afastada do Centro de São Paulo, chamava-se Taipas e que depois passou a chamar-se Jaraguá, por causa do pico com o mesmo nome. O único meio de transporte era o trem da Santos-Jundiaí.<br><br>Os melhores colégios ficavam no bairro da Lapa, distante 15 minutos de trem, foi lá que estudei. <br><br>Naquele tempo não tinha trem a toda hora, quando saia da aula tinha que aguardar uma hora para o trem chegar. Nesse espaço de tempo, ia até uma padaria próxima, onde meu pai tinha uma conta, e ali comia um lanche com guaraná, champanhe ou soda limonada, conhecida como "gasosa".<br><br>Aos 13 anos fui trabalhar numa firma na Avenida da Luz como auxiliar de almoxarife e office boy. Todos os sábados, (naquela época trabalhava-se aos sábados até as 12h) tinha que ir a Santo Amaro de bonde para buscar no “Frigor Eder” as encomendas dos diretores (salsichas, presunto, chouriço etc). Era uma aventura, porque Santo Amaro ficava muito distante do centro e havia um descampado entre a cidade e o bairro, dava a impressão de que estava indo para o interior.<br><br>Aos 14 anos fui trabalhar na API – Associação Paulista de Imprensa, como arquivista e office boy, que tinha como presidente o escritor e sertanista Willi Aurelli (desbravador dos sertões de Goiás e Mato Grosso, que frequentemente recebia a visita dos também sertanistas irmãos Vilas Boas, de quem tive o prazer de apertar as mãos). Willi Aurelli foi o precursor do turismo de Ubatuba, pois foi quem divulgou a cidade após várias visitas, para registrar e noticiar nos jornais da capital sobre o que ocorria no Presídio da Ilha Anchieta. Foi ele também quem fez conhecer a ilhabelense radicada em Ubatuba Idalina do Amaral Graça. <br><br>Willy Aureli, seu hóspede frequente e seu amigo íntimo e fraterno, rebuscando guloseimas nas prateleiras da cozinha, encontraram seus originais atulhando o repositório de uma lata vazia. Foi, portanto, Willy Aureli quem, “burilando-as”, levou suas produções às páginas dos jornais da Capital, tornando conhecida aquela que passou a ser denominada "Escritora I letrada" – a Solitária de Iperoig. <br><br>Na API também, convivi com grandes nomes dos jornais e das rádios como Carlos Spera, Tico-Tico, Vicente Leporace, Freitas Nobre, Homero Silva, escritor e jornalista Arsenio Tavolieri e do teatrólogo e escritor Aristides de Basile, autor de "Uma Noite em Paris", que usava o pseudômino de Jean Cocquelin. Aristides de Basile era gordo, usava chapéu e terno de linho branco, vivia fumando charuto e, apesar de sua bondade e educação, sua figura lembrava muito os personagens do “Capo” de Tutti Capi da máfia napolitana.<br><br>Minha forma física nessa época era de um maratonista, porque todo final de expediente eu tinha que entregar comunicados noticiosos aos jornais. Tudo era feito a pé (e olha que era longe um jornal do outro: Folha, Estadão, Última Hora, O Esporte, Diário Popular, Diários Associados etc). Terminado o serviço eu podia ir para casa, isso nunca antes das 20h. <br><br>O gostoso de trabalhar na API era os "Cartões Permanentes", que eu ganhava das Companhias Cinematográficas, e com os quais eu frequentava de graça a maioria dos cinemas da cidade. Tempo em que o cinema era a principal diversão dos paulistanos e que, dependendo do filme, formava uma fila de dar a volta no quarteirão.<br><br>Durante o dia quando saia a rua para fazer bancos, divertia-me com os camelôs que faziam a bolinha sumir dentre três copinhos, lupa que fazia enxergar no interior do ovo e que também eliminava a roupa das mulheres Eram truques bobos, mas que juntava uma multidão no Largo São Bento, Praça do Patriarca etc. O que eu mais gostava era daquilo de logo pela manhã começar a olhar e apontar para o céu. Começava juntar gente e aquilo ficava o dia todo. Quando eu passava de volta no fim da tarde ainda tinha uma multidão olhando para cima procurando algo que não existia. Essas brincadeiras inocentes, infelizmente, não existem mais. <br><br>O caixa do banco naquela época era muito mais importante do que o gerente de hoje. Ele tinha muita autonomia e conhecia pessoalmente a maioria dos correntistas, coisa inimaginável nos dias de hoje.<br><br>Frequentava também os restaurantes populares, que infelizmente tinham grandes filas. Eram do Sesc no Anhangabaú, Sesi no Palácio Mauá e Liga das Senhoras Católicas nos baixos do Viaduto do Chá. Também almoçava muitas vezes com meu tio, que trabalhava na região da 25 de Março. Ali aprendi a gostar da comida árabe que aprecio até hoje. Não posso esquecer também do restaurante giratório próximo ao Largo Paissandu e que hoje cairia como uma luva no sistema “fast food”. Para quem não conheceu, o restaurante consistia de uma esteira que girava ao redor da cozinha, toda envidraçada, para que os clientes pudessem ver como eram preparados os pratos e a higiene do local. A esteira era como se fosse o balcão de lanchonete. Um único giro ao redor da cozinha era o tempo suficiente para comer sem atropelo. O cardápio era limitado às massas já prontas para servir. Assim, ao chegar, você ia ao caixa, escolhia o prato e recebia um número. Quando chamavam seu número, você subia na esteira e o garçom já servia seu prato, acompanhado de refrigerante e sobremesa.<br><br>Saudades… Saudades… Saudades…<br><br><br>E-mail: [email protected]