Na minha época, no meu quarto de dormir havia um rádio de cabeceira e um despertador daqueles antigos, com duas campainhas em cima e um badalo, que quando tocava acordava toda a vizinhança. Atualmente tenho um rádio, porém daqueles modernos quatro em um.
Tenho o costume de ficar ouvindo músicas até o sono chegar. Essa noite tocou uma marchinha de carnaval que me transportou lá para a época em que morava no bairro Tatuapé, na Felipe Camarão. Mudou para nossa rua uma família de cariocas que tinham dois filhos: o Sidnei e a Marilda, que logo passaram a integrar a nossa turminha.
Essa família abriu ao lado de sua casa um comércio (uma gráfica) que ficava adjacente a Cartonagem São Paulo, do Nagib Izar.
O pai das crianças era um carioca muito espirituoso, alegre e que gostava muito de música, sendo sócio ou dono (não me lembro bem), do Clube Tatuapé. Esse Clube ficava na Av. Celso Garcia logo abaixo do Testilha, em frente a Santista, entre a Rua Iguaruçu e córrego Tatuapé, onde hoje é Av. Salim F. Maluf.
O Clube possuía um salão enorme que ficava no segundo andar, com um bar, banheiros e um palco. Durante a semana armavam-se duas mesas de “Ping-Pong” para jogarmos e aos domingos ele começou a promover um concurso para as crianças cantarem, dançarem, tocarem algum instrumento, ou improvisarem algum show. O melhor era escolhido por palmas e ganhava uns trocados.
Naquele ano ele promoveu as primeiras matinês carnavalescas no Clube. Eu e meu irmão, o Paulo, que viemos do interior nunca tínhamos participado de um baile, (imaginem a emoção que nos aguardava), não víamos a hora de chegar esse dia.
Na Rua Henrique Sertório tinha uma senhora que pintava o cabelo da molecada (podia escolher a cor), que era a nossa fantasia da época.
E lá fomos nós debutarmos nossa primeira matinê carnavalesca. Fomos eu, meu irmão Paulo, Sidnei, Marilda, Jorge Turco e sua irmã a Julia, o Pilim, o Luiz Roberto e seu irmão Luiz Antonio (da Rua Potiguares), o João Piteira (foi goleiro dos 11 garotos e do Guarani da Henrique Sertório), o Tomé e o Guido.
Na época os confetes vinham em um saquinho branco e as serpentinas em um tubo, contendo dez unidades. Mamãe comprou um saquinho de confete pra cada um e dividiu as serpentinas cinco para cada, dando uns trocados para tomarmos um guaraná. “Pulamos que nem cabrito”, em roda, sozinhos ou fazendo trenzinho, ao som das marchinhas da época como: “Mamãe eu quero”, “Me dá um dinheiro aí”, “Chiquita Bacana”, “O teu cabelo não nega”, “Allahla ô” e tantas outras. Suamos tanto que a tinta escorreu toda, voltando o cabelo ao normal (fantasia barata dá nisso). Quando joguei a primeira serpentina par o alto fiquei tão contente como aquele garoto que quando come melado se lambuza. Perguntei ao meu Irmão Paulo se tinha jogado alguma e ele me respondeu que não e que iria guardar todas: “Se no chão tem tantas por que vou gastar as minhas?”, disse.
No intervalo o guaraná era tomado com tanta vontade que no final ficávamos chupando o canudinho até aquele barulho característico, que todas as mães reprovam.
Subimos a Celso Garcia tão contente e não vendo a hora de chegar terça-feira para o segundo baile.
A marchinha que eu ouvi e me levou para o passado foi:
“Foi numa casca de banana que pisei, pisei,
Escorreguei, quase caí,
Mas a turma lá de trás gritou: Chi!
Tem nêgo bêbo aí! Tem nêgo bêbo aí!”
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