São Paulo, a descoberta de uma paixão

São Paulo, um caso de amor eterno!

Meu caso de amor com São Paulo não foi instantâneo, aconteceu lentamente. "A nossa história foi chegando de mansinho, se espalhou devagarzinho, foi ficando até ficar", como na música de Adriana Calcanhoto.

Mudei-me para São Paulo em 1985, aos 13 anos, vinda de uma vila próxima a Bagé, cidade ao sul do Rio Grande. Viemos (meus pais, minha irmã e eu), como tantos outros, a procura de uma vida melhor.

Imagine o choque: uma menina da minha idade saindo de um lugar que era do tamanho de um ovo, onde todo mundo conhecia todo mundo, indo morar na cidade que tem a maior população do Brasil, do continente e de todo o Hemisfério Sul. É de se estranhar; e de fato estranhei e muito!

Como canta Caetano: "é que quando cheguei por aqui eu nada entendi." Não entendi o jeito fechado e desconfiado das pessoas, não entendi a geografia da cidade, não entendi por que meus pais tinham tanto medo de me deixar sair, não entendi o ritmo frenético daquela metrópole. Simplesmente não entendi!

O endereço ainda sei de cor: Rua Xambicá, 104 – Parque da Lapa, Zona Oeste da cidade. Morávamos em um sobrado, casa de dois pavimentos muito comum nos bairros de classe média da cidade. Nossa rua era pequena e bastante calma, bem próxima ao cemitério da Lapa.

Aos poucos fui conhecendo o bairro, os vizinhos, os amigos da escola e fui gostando muito desse novo mundo. Não sei bem explicar o porquê, mas foi assim, vagarosamente, que São Paulo foi me conquistando e eu conquistando São Paulo. À medida que o tempo passava meus pais foram ficando mais tranquilos e me deixaram criar asas para explorar a tão temida metrópole. E quanto mais eu ampliava os horizontes, mais eu me apaixonava pela cidade: seu cheiro, suas cores, sua gente, seu ritmo. O que antes me causava estranheza, agora se encaixava perfeitamente em mim. Parecia que tinha nascido e crescido naquele ambiente. As pessoas que antes me pareciam fechadas e distantes aos poucos foram se revelando amáveis e gentis, amigos para a vida toda.
Lembro-me como se fosse hoje a sensação que tive na primeira vez em que pisei na Avenida Paulista, meu corpo ficou todo arrepiado e senti umas borboletas no estômago. Fiquei maravilhada com a arquitetura daqueles prédios imensos, a largura da avenida, o casarão dos Matarazzo (que na época ainda não tinha sido demolido), o MASP, a torre da Gazeta, milhares de pessoas indo e vindo nos seus passos apressados. E foi a partir desse dia que São Paulo conquistou definitivamente minha alma e meu coração e eu me apaixonei perdidamente por esta linda e louca cidade.

E a paixão virou um caso de amor, um amor para toda vida. Já fizemos bodas de prata. Confesso que às vezes temos nossos desentendimentos: brigo muito com seu trânsito caótico, com sua poluição desenfreada, mas depois de um passeio pelo parque Ibirapuera, me acalmo e faço as pazes. À noite adoro fazer um daqueles programas bem paulistanos, vamos ao teatro ver um musical e depois escolhemos um restaurante bem charmoso com uma comida maravilhosa, que só São Paulo pode oferecer. Terminamos a noite no “lounge” de um hotel que tem uma super vista panorâmica para o horizonte da cidade.

E assim os nossos laços se renovam, a cada dia uma nova peça, um novo filme, uma bela exposição, um lugar diferente ou ainda desconhecido. Toda essa vitalidade, efervescência cultural e constante renovação é o que mantém a chama do nosso amor acesa e um gostinho de quero mais.

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