As vias marginais dos rios Tietê e Pinheiros representam a coluna dorsal do sistema viário da cidade e suas obras de ampliação são prioridades que já deveriam ter sido executadas. Muitas críticas e muitas explicações foram dadas por pessoas que tentam entender os problemas técnicos que enfrentamos, porém não encontrei nenhum artigo que me explicasse quais as verdadeiras causas de nossas enchentes.
As causas e efeitos nada têm a ver com a impermeabilização do solo. Temos de conhecer a mecânica dos fluídos ou o equilíbrio das nossas forças hidráulicas para conhecer o gargalo da drenagem, como diria o meu mestre Takudi Tanaka. Na cidade de Los Angeles, Califórnia, eles tinham um problema crônico de enchentes como acontece na cidade de São Paulo. As autoridades perceberam que o Rio Los Angeles, era na verdade um enorme vertedor de milhares de contribuições pluviais. Quando chovia forte o Rio Los Angeles se tornava um grande rio e com uma vazão enorme, ao contrário do que era normalmente, apenas um pequeno córrego. Ele foi canalizado nos anos 40.
O canal tem uma seção enorme. A base varia de 80 para 120 m no fim. Tem 80 km de comprimento e 20 m de profundidade. Eles perceberam que para as águas não provocarem enchentes na cidade, essas águas deveriam ser retiradas da cidade rapidamente, e na maior quantidade possível. Usam o canal do Rio Los Angeles, com o leito quase seco, como palco de filmagens de diversos filmes, sempre em cenas de perseguição. Mas quando chove, o canal que foi projetado com acentuada declividade, a velocidade da água passa dos 50 km/h, para realmente transportar aquele volume de água para fora da cidade rapidamente.
Em uma ocasião uma betoneira trabalhava no canal e quando a água veio, era em tão grande quantidade que a betoneira foi arrastada e acabou batendo em uma pilastra da ponte sobre o canal. Os dois trabalhadores foram resgatados por helicóptero, após terem subido em cima da caçamba. Muitas pessoas talvez suicidas, ao caírem no canal não foram salvas, pois a velocidade da água é realmente muito forte. Mas funciona muito bem. A cidade de Los Angeles nunca mais teve inundações.
Em São Paulo ocorre justamente o contrário. Em 1929 a Light provocou grandes enchentes e desapropriou muitas áreas. A Light simplesmente construiu uma barragem no Rio Tietê para a fabricação de energia na usina de força no Rio Pinheiros, ao lado da Avenida Luiz Carlos Berrini. Desapropriavam grandes áreas, lotes alagadiços próximos aos rios para a construção de instalações de força. O Rio Pinheiros que antes desaguava no rio Tietê, saindo da cidade sem nenhum represamento, então teve a sua direção invertida. Toda a água de chuva que cai na cidade é recolhida e dirigida para a Represa Billings, posteriormente descendo para a Usina de Força Henry Borden, situada em Cubatão, que sustenta de eletricidade as indústrias de base da região, inclusive o pólo petroquímico. Na época não existia a Itaipu e somente as águas da Represa Billings não seriam suficientes para gerar energia, sem as contribuições dos rios Pinheiros e Tietê.
O volume monstruoso de água dos afluentes do Tietê, como o Tamanduateí, Aricanduva e dezenas de outros, ao chegar à barragem da confluência Tiete e Pinheiros, é desviado para a subida contrária do Pinheiros, para abastecer a Billings e a Usina Henry Borden. Não adianta fazer centenas de piscinões, atualmente já temos 17. Além de a água não sair da cidade ela fica lentamente circulando. Vem da zona sul pelo Tamanduateí, percorre a zona central pelo Tietê, e volta para a zona sul pelo Pinheiros. A água com pouca velocidade faz a festa dos pernilongos.
As águas recolhidas na cabeceira do Rio Tamanduateí, na região sul da cidade, percorre dezenas de quilômetros, sendo forçadas a voltar para a mesma zona sul em uma velocidade de cinco Km/h. Parece que desejam inundações. Imagine então quando chove 70 mm/h como aconteceu recentemente, ou seja, 70 l de água da chuva por metro quadrado.
Autoridades reclamam do lixo, porém o lixo prejudica apenas o giro das turbinas das usinas. Preocupam-se com plantações de árvores que somente vão atrapalhar a movimentação das dragas em obras do leito do rio. O Rio Tietê precisa ser dragado todo ano, pois tem assoreamento contínuo.
Das obras dos grandes lagos do Parque Ecológico do Tietê promovidos há 20 anos, o assoreamento já acabou com quase tudo. Para resolver esse problema de uma vez por todas, o Rio Pinheiros deveria voltar para o seu curso natural, eliminando a Barragem da Traição no Cebolão e liberando suas águas para um canal semelhante ao de Los Angeles por 50 ou 60 quilômetros. Ia tirar dos paulistanos esse transtorno que leva algumas vidas todos os anos, que são as enchentes causadas pela barragem, e acidentes com carros ao cair dentro do rio. O antigo Rio Los Angeles hoje é um canal devidamente concretado e as águas que ele transporta tem velocidade assombrosa. Não tem assoreamento. Funciona. Não é preciso dragar e as chuvas carregam realmente os detritos.
A calha do Tietê que tem seus cinco metros de profundidade na parte central cai para menos de dois de profundidade nas partes mais próximas das margens, pelo assoreamento e falta de velocidade das águas barrentas. A duplicação da Marginal não afeta em nada a drenagem das chuvas paulistanas. Deveria existir um canal que realmente transportasse a água para fora de São Paulo. A grande desculpa das autoridades é o lixo jogado no rio. Mas o Tietê não é um rio, é uma represa com barragem.
Bobagem relacionar Los Angeles com um canal totalmente concretado, com nossa cidade represada para produzir energia que ocasiona inundações todo ano. Morei na Barra Funda metade da minha vida e sei o que passamos, com perdas materiais e com o perigo de doenças. No apagão recente, a baixada santista não teve energia de Itaipu, nem da Henry Borden, que parece não ter autonomia para atender as petroquímicas. Então para que manter esse sistema hidráulico em São Paulo implantado há tanto tempo? São Paulo merece mais.
Ref. São Paulo merece mais
(Cartas 13/11/2011 para O Estado de São Paulo)
Prezado Sr Pedro,
"As causas e os efeitos nada têm que ver com impermeabilização do solo. Temos de conhecer a mecânica dos fluidos ou o equilíbrio das nossas forças hidráulicas para conhecer o gargalo da drenagem, como diria o meu mestre Takudi Tanaka."
Sou filho de seu antigo mestre Takudy Tanaka da UMC. Gostaria de agradecer a referencia a meu querido Pai, que infelizmente faleceu no final de 2010. Eu mesmo não estava no Brasil, pois resido em Houston, Texas, trabalhando em grande empresa relacionada ao mercado de Oil & Gas. Não me formei em Engenharia Civil como provavelmente você, mas acabei me formando em Engenharia Mecânica na Mauá. Tentei trilhar os caminhos de meu pai, lecionando por cerca de 15 anos em varias faculdades em São Paulo (FEFAAP, UNIP, OMEC, Lins) incluindo a disciplina de Mecânica dos Fluidos e sendo homenageado e Paraninfo de varias turmas de formandos. Lembro-me de quando tive essa disciplina na Faculdade, meu pai me presenteou com uma "pilha" de livros de Mec-Flu e tive que dar um jeito de entender essa loucura toda!
Novamente, agradeço a menção do nome de meu querido falecido pai Tanaka nesse artigo. Fico a disposição para qualquer necessidade que você tenha.
Atenciosamente,
Fabio Tanaka
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