Rua da Consolação, 1209

Sinto o aroma das uvaias. Lembro-me, com saudades, dos meninos, atrás do muro, divisa com o antigo DAE (atual SABESP), na Rua da Consolação 1209, tentando pegá-las. Indignada, minha avó esbravejava e as uvaias, que pouco duravam, iam forrando o chão de nosso quintal, quando não viravam uma deliciosa batidinha, conforme elogios dominicais, alegres até demais, de meu pai e tios. Nosso quintal sempre abrigava, a partir de setembro, uma cabrita, que amarrada a uma corda, passeava comigo na Rua da Consolação, de trilhos e paralelepípedos. Todo começo de novembro, passavam a residir conosco um galo e um peru, que, vermelho, se esgoelava em responder aos nossos chamados. E a cachaça da batidinha de uvaia, ia, invariavelmente, embebedar o pobre galo. Passava, diariamente,um sorveteiro, em sua carrocinha puxada por um cavalo, vendendo um sorvete que, hoje, ainda, guardo o sabor, assim como me recordo de um senhor que tirava na hora leite de cabra e nos vendia em copos. Tinha também o Zé Machadinho, na porta do Colégio Santa Mônica, que ficava na rua Visconde de Ouro Preto. Ele vendia um melado, branco e rosa, que rendeu boas cáries. Nós, crianças, tínhamos um programa predileto, ficar na janela, nossa televisão. Aliás, ouço o eco das palavras de minha família: aquelas meninas não saem da janela! Esse programa produzia belas broncas, porque deixávamos a tarefa escolar de escanteio. Nas redondezas, havia a casa de tecidos da Dna. Rosa, o armazém do Sr. Cibus, a casa do Sr. Valdemar "das máquinas", um grande técnico no conserto de antigas máquinas de costura, um auto elétrico, o bar do Gamboa, algumas lojas que trabalhavam com jazigos, por conta do cemitério da Consolação, o toldo Dias, a barbearia de meu tio. E, quando chovia, sem saber dos riscos, corríamos de pés descalços na enxurrada daquela rua de trilhos e paralelepípedos.Enfim, essa era a rua da Consolação, dos anos 50, entre a Rua Piaui e a Rua Dona Antonia de Queiroz, onde vivi até os dezoito anos. Depois, bem depois é uma outra história.