Choveu na véspera e durante a noite toda. Era uma sexta feira de outono e a manhã nublada anunciava mais temporal. Pouco tempo depois, o sol furou as nuvens e iluminou a mão espalmada com o mapa vermelho ao centro. Ofuscou as vistas, reluziu na arte. O azul do céu dominou a cena. A beleza da arquitetura do Memorial da América Latina explodiu em cores e harmonia.
Revoadas de crianças e jovens, em algazarra, aguardavam para ver a exposição Guerra e Paz, de Portinari.
Ao chegar, nosso grupo foi recepcionado por Rodrigo Linhares, que enriqueceu a visita com seus conhecimentos e paciência. Começamos pela Galeria Marta Traba, onde foi possível ver os 100 estudos preparatórios do pintor. Esboços, documentos históricos, e outras obras de colecionadores vindas de toda parte. Até de Londres e Milão.
Guerra e Paz é uma obra monumental doada pelo governo brasileiro, à sede da ONU em Nova York. Candido Portinari realizou esta encomenda do governo brasileiro, entre 1952 e 1956. Foram seus dois últimos e maiores murais.
Um planejamento de uma reforma no edifício da sede da ONU possibilitou articulações entre o Governo Federal e empresas estatais, que viabilizaram o projeto Guerra e Paz. De fevereiro a maio de 2011, os painéis foram restaurados em ateliê no RJ. Em 2012 chega a São Paulo. Depois, seguirá por outros locais até retornar à ONU, em 2013.
De volta ao pátio do Memorial, com o sol a pino, atravessamos o "deserto". Chegamos ao Salão de Atos Tiradentes. Imponentes painéis de 14m altura por 10m de largura, compostos por 28 placas de madeira compensada naval de 25 quilos cada, nos aguardavam.
– “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” – disse Tolstoi.
Olhos rútilos, respiração suspensa e emoção contida. Apreciamos o contraponto entre o drama e a poesia, a fúria e a ternura.
De um lado, a força e a intensidade das tragédias provocadas pelas guerras, injustiças, desigualdades e fome. Do outro, a placidez dos folguedos, a alegria das brincadeiras, as artes e amizades das pessoas.
E na Biblioteca Latino Americana, mais arte na veia. Arte transformadora. Veias que se abrem à paz e ao bem viver. A paz é um jeito de ser.
Nota: Sem curso primário completo, mas com muita tenacidade e talento Portinari tornou-se um dos mais famosos pintores das Américas. Produziu mais de cinco mil obras, de pequenos desenhos a grandes murais.
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