Ás vezes sinto uma saudade enorme de certos lugares de um passado distante, em que minha memória se esforça à exaustão para encontrar os mínimos detalhes e trazê-la de volta ao presente.
Estávamos em 1949 e foi neste lugar que vivi alguns bons momentos da minha juventude. Foram 16 anos. Meu pai era motorista de praça com estacionamento neste local, bem em frente ao Largo São Francisco e da igreja do mesmo nome, ao lado da Faculdade de Direito.
Os ônibus que iam para a Vila Clementino e Paraíso lá faziam seu ponto inicial, e dali também saiam os táxis lotação populares para os bairros da classe B alta. Quantas saudades desse tempo. Nesse mesmo ano adquiri minha carteira de trabalho de menor, pois já tinha 14 anos e com a permissão do meu pai consegui um emprego em uma oficina de casacos na Rua Don Jose de Barros, ao lado do Cine Opera. Fiquei nesse meu primeiro emprego somente um mês, minha função era a de fazer entregas, mas durante um mês nunca fiz uma entrega sequer, o Miguel (proprietário) só me usava para ir ao Ponto Chic ou ao Salada Paulista para comprar lanche dele e dos demais funcionários.
Procurando no Diário Popular acabei encontrando outro também de entregador na Papelaria Cruzeiro, na Rua Wenceslau Braz, donde os bondes que vinham da Avenida Rangel Pestana faziam o contorno pra retornar em direção aos bairros. Nesse emprego fiquei por seis meses, ate que meu primo Paschoal que tinha começado a trabalhar na Livraria Saraiva arrumou uma colocação para eu trabalhar lá com ele. E assim foi que ao longo de tantos anos permaneci naquela redondeza ate 1965, quando deixei São Paulo.
Fui empregado da livraria por quatro anos e em breve voltarei a ela em alguma crônica. Do Largo lembro-me com nostalgia dos estabelecimentos comerciais que abrigava. Alem da Livraria Acadêmica, como era chamada a Saraiva ao lado da Loja dos Presentes, que ficava na esquina em frente à faculdade. E do lado oposto donde parava o ônibus Paraíso estava o famoso Mercado das Nações de artigos importados,queijos presuntos e secos e molhados em geral , descendo na mesma calcada havia uma pequena casa de doces, e na esquina donde parava o 47 Vila Clementino estava a Loja de Discos Opera.
Descendo pela mesma calcada, já na Rua Jose Bonifácio ficava a casa de calcados Aguiar donde namorava os sapatos de cromo alemão e pelica feitos à mão e até sob medida para os mais abonados, e aqueles sapatos que adorava, bem caros e duradouros. Alias tenho ate hoje pelo menos dois pares que comprei anos mais tarde nessa loja, quando já ganhava para isso.
Já do outro lado da rua, subindo de volta estava o restaurante Itamaraty (que por sinal com todas as mudanças que aconteceram no local continua funcionado, com acesso restrito, pois existe um portão de grade elétrico que abre para o teto tipo garagem, que e acionado cada vez que aparece algum usuário reconhecido pelos proprietários), ao lado existia uma Cafeteira Italiana que servia todos os tipos de café , aqueles feitos nas maquinas italianas novidade naquela época para os expressos que passaram a concorrer com nossos cafezinhos .E na esquina com a São Bento uma loja de Malas que ainda continua por lá também.
Seguindo pelo largo outra vez, em direção a igreja, havia um bar e a "Loja de esportes Fortunato", ao lado da "Foto Ótica City" do Zezinho e a loja de guarda chuvas "A Sombrinha Elegante" donde trabalhava a Marilene, uma menina linda que encantava a todos.
E bem na esquina, na calcada à banca de jornais do João Italiano do Bexiga . E um lugar que jamais esquecerei, e que ficava a poucos metros de distancia do largo, na Rua São Bento e que visitava com frequência. Era a casa Califórnia de sucos e batidas com aqueles sanduíches de calabresa de Bragança Paulista inigualáveis.
Com as obras do metro o largo foi inteiramente desapropriado, e numa das minhas visitas nos anos 90 ainda encontrei o Fortunato com a loja Esportiva na Rua Libero Badaró e também o Zezinho da Ótica também ao lado dele.
E a Livraria Saraiva estava na Rua Jose Bonifácio gerenciada pelo Ismael Espósito meu grande amigo e único remanescente dos meus tempos, e que depois mudou para a Praça João Mendes ate se aposentar (hoje com sua própria loja na Humaitá, no Bexiga).
Pena que o tempo passou tão depressa, e nos deixou essa lembrança tão bela de um lugar que nos deu tantas alegrias.
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