Um dia meu pai internou-se na mata para buscar um pinheirinho e fazer nossa árvore de natal.
Em casa, nós, as crianças, e os adultos, como a madrinha Maria, faziamos enfeites. Enfeites absolutamente singelos, tipo bolinhas feitas de cascas de ovos, bonequinhas de palha de milho e musgo, que recolhíamos das árvores, imitando verdes gramados.
Meu pai, quando saiu, já tinha em mira um belo pinheirinho que vira na beira do rio, num descampado. Tinha a altura exata pra enfeitar a nossa sala.
Chegando ao local, pegou do machado e preparava-se para abater o pinheirinho; pinheirinho que iria nos trazer o espírito do natal, ou torná-lo mais presente em nosso dia a dia até a grande noite que se aproximava e que as crianças aguardavam com infinita ansiedade. De repente, semi-oculto entre a galhada, divisou um ninho de passarinhos (um dia ele confessaria que não viu os filhotinhos, mas a presença do ninho bastou). Sem titubear cancelou a busca do pinheirinho; nem esse nem outro, pois e se não visse algum outro ninho e derrubasse a árvore?
Voltou pra casa, sem árvore, sem o símbolo do natal, porém, talvez de uma forma como nunca acontecera antes, trazia o natal dentro de si; no seu coração.
Crianças, ficamos um pouco decepcionados, mas fizemos uma bela árvore de galho seco e a pequena decepção passou. Ninguém tocou mais no assunto da busca do pinheirinho.
Um dia, quando já morávamos em São Paulo, eu relembrei esse caso e percebi que ele corou e seus olhinhos brilharam. Um homem simples; um homem e tanto.
Meu pai!