Mas… Um de nós não voltou

Já disse aqui que por 47 anos vivi na Parada Inglesa. Foi neste bairro e suas adjacências que cresci, amadureci e me tornei homem. Lá também foi onde tive as primeiras alegrias e as primeiras dores, inclusive a mais certa e cruel de todas, a dor da perda de alguém a quem amamos.

Onde hoje é o Shopping Norte e o Center Norte, naquele tempo, 1962, 63, 64…, era o lixão da Vila Guilherme e a várzea do Rio Tietê. No verão, por conta das chuvas o transbordamento do rio formava ali inúmeras lagoas, onde, apesar dos alertas e proibições de nossas mães, eu mais uns encapetados de amigos meus, íamos nadar.

Numa semana, logo depois do carnaval de 1962, estávamos lá, eu, com 11 para 12 anos, o Adolfinho com 11 anos, o Virgílio, com 12 para 13 anos (este hoje é padrinho da minha filha) e o Cesar, com 13 anos. Sem medo de nada e aproveitando a inconsequência da idade, banhávamos naquelas águas que sabe Deus os perigos que podiam guardar. De repente apareceu boiando não sei de onde, uma porta velha. Subimos os quatro nela e passamos a usá-la como fosse uma balsa. Em um determinado momento o Cesar disse:
– "Vamos ficar cada uma em uma ponta e quando eu contar três a gente mergulha juntos”. Assim fizemos, no três mergulhamos os quatro. Após alguns segundos nossas cabeças apareceram acima da água, mas uma não voltou, a do Adolfinho. Apavorados e sem nenhuma experiência saímos da água correndo e desesperados fomos procurar ajuda em algum adulto que pudéssemos encontrar, mas quando a ajuda chegou era tarde. O corpo dele enroscou nos entulhos do fundo da lagoa e ele se foi.

Foi a primeira vez que senti a dor da perda. A dor que senti naquele dia, até hoje é guardada no meu peito, se não doe mais, ainda incomoda quando me lembro, principalmente nesta época de Carnaval.

Minha mãe, depois de passado os primeiros dias da tragédia, não teve a menos dúvida, me deu uma bela surra de cinta, dizendo que podia ser ela e não a Dona Nilza (mãe do Adolfinho) quem agora estivesse chorando.

Adiantou? Não. No verão de 1963 lá estava eu e os encapetados, de novo, aproveitando as delícias de sermos crianças.

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