União dos Escoteiros do Brasil – Federação Paulista de Escoteiros de Terra. Sede: Rua Veridiana, 220 – São Paulo – Campo-Escola "Fernando Costa" Serra da Cantareira.<br><br>Memorandum – Certificado de graduação: O escoteiro Anthony Mennitto da Associação "Paes Leme" foi nomeado pelo Chefe Bruno Turola para o cargo de monitor, pelo que lhe é passado o presente certificado. São Paulo, 23 de Abril de 1948.<br>(Assinado) Cel. Pedro Dias de Campos-Presidente- (Assinado) Bruno Turola – Chefe Geral.<br><br><br>Acreditem, este foi um dos dias mais felizes da minha vida! Ter passado de "Lobinho" a escoteiro e agora a monitor!<br><br>A nossa sede de encontro dos escoteiros da Associação Paes Leme era no Grupo Escolar Duque de Caxias, situado entre as Av. Tiradentes e a Rua Rodrigo de Barros no Bairro da Luz. Esse emérito local de ensino tinha uma entrada lateral para carros e caminhões. Seguindo essa entrada até ao fundo, iria ter-se com uma garagem. Nessa garagem, cedida pelo grupo escolar, era a nossa sede de escotismo. Era ali que guardávamos todo material de acampamento e demais acessórios para a prática do escotismo. <br><br>O nosso chefe o Sr. Bruno Turola, um competente e honrado cidadão, cuidava e comandava as duas equipes de escoteiros: A patrulha do Gato e a patrulha do Lobo. Recebíamos aulas de civismo e de como nos comportar como escoteiros. Além das palestras, tínhamos a disposição livros à respeito. Nessas reuniões eram decididos aonde seriam os acampamentos ou o bivaque. Escolhia-se um local mais distante no caso de acampamento de dois dias, por exemplo, ou um lugar mais perto para um bivaque. <br><br>Numa reunião, ficou acertado acamparmos na Praia da Vacas localizada na Baía São Vicente. Para tanto, a primeira coisa a fazer era levantar-se cedo e tomar o trem para a cidade de Santos. Naquele tempo era uma viagem inigualável, quer pela beleza da paisagem quer pela técnica usada por cabos que arrastavam os vagões na subida da serra. E assim foi, com a mochila nas costas, cantil, embornal e tudo mais. O Chefe, com a ajuda dos monitores, mantinha a pequena "tropa" sempre junta e assistida. Principalmente, dever-se-ia prestar mais atenção aos "lobinhos" que eram garotos de cinco ou seis anos de idade.<br><br>Para chegar-se até a Praia da Vacas, ao descer da estação de trem tomávamos um bonde que nos levaria até a Praia de São Vicente. Dali seguir-se-ia a pé, atravessando a Ponte Pênsil seguindo até o final pela encosta do Parque Prainha. Era uma caminhada e tanto. Mas, quem se importava. Assim foi feito. Depois da estação, fomos de bonde até São Vicente. <br><br>Começamos a caminhar pela calçada da cidade em grupos de três. Os escoteiros à frente e o chefe atrás. Éramos todos sorrisos imaginando como seria a Praia da Vacas. Mais a frente de nós todos, dois garotos caminhavam em nossa direção. Eram dois moleques lá nos seus 14 ou 15 anos de idade. Quando eles estavam passando por nós, os dois começaram a fazer chacota, gracejos e sátira da nossa farda. Começaram com aquele: “um, dois, um, dois… Lá vai um bobão” e outras tantas palavras mais pesadas…<br><br>Nós paramos de rir e ficamos calados até eles passassem por nós. Entretanto, o nosso chefe, o Sr. Bruno, havia percebido a coisa e parou. Deixou-nos seguir. Quando os dois moleques chegaram mais para perto, o Sr. Bruno agarrou um deles pelo braço e deu-lhe um belo puxão de orelhas. O garoto começou a chorar e nós todos começamos a rir. Depois disso voltamos a caminhar normalmente. <br><br>Quando estávamos quase chegando na esquina daquele quarteirão fomos abordados por quarto soldados fardados. Deram voz de prisão a todos nós. Dois dos soldados seguraram o nosso chefe pelo braço. Sem saber muito o que estava acontecendo fomos seguindo os soldados que nos empurravam atrás de nós.<br><br>O Sr. Bruno dizia em voz alta para não nos preocuparmos, mas estávamos em pânico. Um dos lobinhos começou a chorar. Tentávamos nos manter calmos. Finalmente chegamos até um lugar que era a delegacia local. Até hoje não sei dizer que delegacia foi aquela. Entramos e nós os escoteiros fomos levados para uma das celas com grades. Trancaram-nos ali! Vimos levar o nosso chefe para um outro local. Muitos de nós começaram a chorar… Um lobinho havia urinado nas calças. Um dos soldados chegou até a grade dele e disse para ficarmos calmos que nada iria acontecer conosco.<br><br>Acredito que ficamos ali perto de duas horas quando o soldado abriu a cela e disse para nós o acompanhá-lo. Entramos em uma sala. O Sr. Bruno estava de pé diante daquele homem. Soubemos mais tarde que era o delegado. O delegado chegou-se mais para perto do nosso chefe e disse:<br>- "Muito bem seu ‘chefe’, está pronto para pedir desculpas pelo que você fez ao meu filho?”<br><br> Estávamos ali em pé presenciando aquela cena patética de despotismo e psicopatia. Quando o Sr. Bruno mal acabou de dizer o "sim" o delegado deu-lhe uma violenta bofetada no rosto. Nesse momento ficamos assustados. Iríamos todos apanhar também? Vários começaram a chorar… O delegado retirando-se da sala deu ordens para nos soltar. <br><br>Quando ganhamos a rua estávamos em pânico. O chefe segurava um lenço junto ao lábio sangrento. “Vamos, vamos embora. Está tudo acabado aqui. Vamos para a Praia e esquecer este incidente.”<br><br>O chefe Bruno, voltou a sorrir. Nunca foi conversado, durante toda a nossa estada na Praia das Vacas a respeito do triste episódio. Parabéns chefe Bruno Turola! Obrigado chefe Bruno Turola!<br>O chefe Bruno Turola permaneceu nesse trabalho árduo e digno até os seus últimos dias.<br><br><br>E-mail: [email protected]