Lembro-me de muitas coisas da minha infância, mas do que não me esqueço é dos Carnavais. A família muito numerosa, muitos primos e primas, morávamos perto uns dos outros, era uma farra.
A casa de minha avó era grande e tinha um enorme quintal e justamente aí que fazíamos os nossos bailinhos carnavalescos. Enfeitávamos todo o espaço com serpentinas e ligávamos o rádio que nesses dias tocavam marchinhas o tempo todo. Meu pai pintava o rosto da criançada com tinta colorida e pouco a pouco as caras lavadas iam dando lugar às oncinhas, palhaços, coelhinhos, enfim uma festa de caras pintadas.
O confete se espalhava por toda a parte, mas depois do baile nossas mães e avó nos davam vassouras e nos faziam limpar tudo direitinho.
Nessa época, embora o dinheiro fosse curto, meus pais não deixavam de nos dar um kit com um saco de rolos de serpentinas, um pacote de confetes e um óculos de plástico enfeitado com um cordãozinho de veludo para proteger os olhos do lança-perfume, que na época era permitido, mas os malvadinhos espirravam no olho dos desavisados e ardia um bocado!
Fantasia em nossa casa só de papel crepom, aí torcíamos para que não chovesse, senão… Só uma vez, usamos fantasia mesmo; nesse Carnaval, minha irmã caçula se vestiu de bailarina, saiote de tule branco, com corpete de cetim azul todo bordado com lantejoulas, tinha até sapatilhas. Eu usei um traje de japonesa, minha avó fez um quimono estampado com uma faixa larga amarela amarrada na cintura e um grande laço atrás, nos cabelos dois “bigs” pompons amarelos também, um de cada lado. Acho que Madame Butterflay ficaria com inveja dos mesmos.
Meu pai nessa época trabalhava em uma indústria que tinha um salão de festas e fazia bailes de Carnaval para os funcionários, apesar de nunca ter comparecido, ele colaborava confeccionando máscaras gigantes que iriam enfeitar o salão nos dias de folia. Nós adorávamos ver meu pai pintar as gigantescas decorações. Eram piratas, baianas, espanholas, Aladins, gênios, etc..
Ficávamos tristes quando o caminhãozinho da empresa vinha buscá-las, mas era assim todos os anos. Na terça-feira gorda é que nos esbaldávamos, meus pais nos levavam para comer pizza em uma pizzaria numa ruazinha perto da Praça da Sé, que felicidade, pois só comíamos pizza uma vez por ano e sempre na terça-feira de Carnaval. Nesse dia, além da espetacular meia muzzarela, meia aliche, que vinha tinindo e fazendo fios. Podíamos pedir uma sobremesa, pudim de leite ou salada de frutas. Depois íamos dar um passeio pelo Centro da cidade. Víamos vitrines e parávamos para ver os cordões carnavalescos que desfilavam pelas ruas.
Aí é que vinha o “drama”, pelo menos para mim, que não sei por que tinha pavor dos cordões e fazia um verdadeiro escândalo, chorando, esperneando e puxando tanto a saia de minha mãe que não sei como nunca a rasguei. Com isso, meus pais eram obrigados a ir embora sem ver nada do desfile.
Mais tarde, já na juventude, fomos a alguns bailes de salão principalmente no Esporte Clube Palmeiras, era bom, mas gostosos mesmo foram os meus primeiros carnavais.
E como já dizia o rei Roberto Carlos, “Velhos tempos, belos dias”.
E-mail: [email protected]