Meu primeiro carro paulistano

Mais um ano se foi na estrada do tempo…

Nesta madrugada, chuva leve caindo e na intimidade de meu laraqui pelos lados de Santo Amaro, minha memória aos tempos de juventude retroage.

Meu primeiro carro.

De quem o comprei, não me recordo mais, sei que foi fruto de meu trabalho de "ajudante" no Empório de meu pai, cujo salário economizei,sei lá por quanto tempo e uma "ajuda discreta" de minha mãe.

Tinha 18 anos e tirei a carteira de habilitação de motorista já sonhando com a aquisição de um carro.

Era um Dauphine já muito usado que inclusive tinha até um pequeno furo no assoalho do lado do carona, o qual vedei com a colocação de tapetes de borracha.

Sentia-me o cara mais importante da turma. Vaidade juvenil.

A garagem do Casarão que morávamos, em parte servia como depósito e só cabia um veículo. O de meu pai.

Deixava-o na rua lateral do Casarão, defronte a porta de entrada da pequena sala.

Agora vem o fato pitoresco, que até hoje meu mano, ao recordar dá risada.

Apesar de ser uma época ainda tranqüila, tinha medo que o roubassem na calada da noite.

Acordava de madrugada e ia até a janela lateral do sobrado e espiava para ver se o mesmo ainda estava lá.

Para acabar com a tola preocupação encontrei a solução:

Comprei uma corrente grande e um cadeado reforçado e todas as noites antes de dormir, passava a corrente no para-choque e a rodeava no poste que havia quase defronte a porta e finalizava com a colocação do cadeado "robusto" cuja chave juntamente com a de ignição e depois as guardava na cabeceira de minha cama.

Todos os meus amigos contemporâneos e meu Mano pediam para dirigir. Mas o meu egoísmo ainda pueril, não permitia.

Vivia lavando e encerando-o. Brilhava que só ele.

Gasolina só colocava a "azul" que naquele tempo existia e era a melhor e mais cara.

Certa manhã, ao acordar, não encontrei as chaves apesar das intensas procuras. Minha Mãe falava: – “Filho, será que você não as colocou em outro lugar?”
– “Não sei Mãe!”

E agora? O que faço? E o carro acorrentado lá no poste.

– “Cideme se eu achar as chaves você deixa eu dirigir um pouco?”; meu mano perguntando.
– “Deixo, Ito!”
– “Você promete?”
– “Sim Ito!”

Minutos depois aparece ele com as chaves e me entrega:

– “Onde estavam?”
– “Lá em cima do armário do banheiro.”

Nada desconfiei, apenas pensei:
– “Acho que coloquei lá mesmo quando fui tomar banho.”

O tempo passou… O carro se foi… Só na lembrança ficou como o primeiro grande amor "material" que tive.

Muitos anos depois, já adultos, casados até, veio a revelação de meu mano quando, em casa, ele veio todo orgulhoso com o primeiro "zero" que ele comprou.

– “’Pô’, que bonito”, falei. “Deixe dar uma volta?”
– "Não!", falou rindo.

Lembra quando você não me deixava andar naquele carro que você comprou e acorrentava no poste?
– “Sim!”
– “Pois bem vou confessar: Fui eu que escondi as chaves…”

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