Sou neta de filha e esposa de imigrantes, apesar das necessidades que enfrentavam e das perdas (dois filhos no navio e a avó materna em decorrência de uma hepatite adquirida na imigração) todos eram unidos e se ajudavam, no meu bairro tinham imigrantes espanhóis e portugueses, nos éramos italianos.<br><br>Meu babo tocava bandolin, o senhor Amadeu tocava violão e tinha até mesmo uma vizinha tocando castanholas. A nossa rua era a mais alegre do bairro, cantávamos e dançávamos a tarantela, o vira.<br><br>Não me esqueço do “Estornello Fiorentino” que todos aprenderam a cantar, e dos pratos em datas como natal… Eram pratos para lá e para cá, a gente acabava trocando os pratos. Éramos uma família de raças misturadas que tinha respeito, caráter e muito, muito amor.<br><br>Ai que saudades tenho da minha infância, das alegrias de criança que o tempo não apagou. Nosso bairro e nossas portas sempre abertas.<br><br>Quem se lembra da Pensão da Calabresa? Onde comiam os que pagavam e também os que penduravam, mas ninguém ficava devendo. Meu marido veio morar nessa pensão e acabamos nos casando.<br><br>Ele veio com ato de chamada para trabalhar no Obelisco do Ibirapuera, era escultor e queria ganhar dinheiro para voltar à Sicilia. Vivíamos cantando “Terra estrangeira”: “ué paisano, ma lamore stato piu forte e siamo sposato a 57 anni”.<br><br>Tivemos a Marmoraria Siciliana, primeiro na Rua do Lago, no Ipiranga, e depois na Rua Assungui, na Vila Gumercindo. Éramos conhecidos em toda a região.<br><br>Ele trabalhou no Theatro Municipal, no templo israelita e em varias igrejas de São Paulo e cidades vizinhas.<br><br>A família dele veio para o Brasil, nesta terra abençoada criei meus filhos e hoje tenho meus netos.<br><br>Meus pais e sogros trouxeram a cultura de sua terra natal mais amavam este pais de todas as raças e todos os credos… “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá. As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá”.<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>