Morava eu na Rua dos Samurais, esquina com a Avenida das Cerejeiras, no Jardim Japão, quando conheci meu marido, Antonio Carlos ( esse é o seu nome de batismo) mais conhecido como " Nego ou Neguinho" que de nego não tem nada, só o apelido dado pela avó paterna, apesar de ser branco, meio transparente, neto típico de italianos.<br><br>Eu era uma garota magrinha e "espevitada" como diziam as más línguas, só porque nada me prendia a coisa alguma. Tinha nove anos na época e apesar do tamanho, era ingênua e sem maldade, olhos com cílios grandes e cor de mel, cabelos presos displicentemente em um " rabo de cavalo", como era chamado o penteado mais corriqueiro em moda no momento. Não ligava para o que as "comadres" diziam:<br>- “Essa menina parece um moleque, anda por cima dos muros, mais parece um gato, brinca na rua de bicicleta, solta "pipa", manipula um estilingue como poucos meninos o fazem, olhem as suas roupas? São mais apropriadas para um garoto do que para uma menina!”.<br><br>Eu adorava andar de shorts e camiseta o que era um horror na época. Não usava no dia a dia as roupas cheias de fricotes como as outras meninas da minha idade, com laçarotes ou babados vistosos e fartos. Não. Minha praia era outra. Gostava de me sentir livre, com roupas com as quais pudesse sentar no chão, rolar na grama, limpar as mãos quando sujas de cola, das pipas que fazia com meus amigos, em um lugar ao lado da minha casa e que era um campinho improvisado de futebol, onde hoje existe o supermercado Dia da Avenida das Cerejeiras. Senhor, quantos puxões de orelha levei da Dona Piedade (era minha santa mãe) por conta das tesouras perdidas nessa empreitada. Nos pés trazia um tênis chamado “Conga”, se é que podemos chamá-lo de tênis, bastante surrado, que era o único que conhecíamos.<br><br>Minha querida irmã, já falecida, que na época era solteira e mais velha do que eu, vivia a encomendar vestidos lindíssimos, a uma costureira sua amiga chamada Dona Helena que morava na travessa da Rua dos Samurais. <br><br>Essa pessoa de esmerados dotes no ramo da costura era caprichosa e paciente, fazia para mim, verdadeiras obras de arte que eram miniaturas dos vestidos que ela executava para minha irmã, completamente o oposto de mim. Pobre "mana", para satisfazê-la colocava aquelas peças dignas de uma vitrine de luxo, tornava-me a princesinha transformada, porém só por algumas horas, indo até o local de destino, passeio, cinema, parque, casa da família do noivo dela, etc., pois a pobrezinha só podia sair de casa se levasse junto esta mala sem alça que era 'euzinha", imposição do senhor Amério Alves, português de Panoias, rígido com os filhos e intransigente com suas meninas.<br><br>Mal chegava do dito passeio e a primeira coisa que eu fazia era despir os modelitos e trocá-los pelos meus trajes, motivo que indignava os vizinhos. Minha adorada irmã não se dava por vencida, querida tornar-me uma "lady" a qualquer custo, chegava a levar-me no único salão de cabeleireiros do bairro, que fica onde hoje o salão do Wagninho perto da Ponte Janio Quadros, o nome do salão era Alberto Cabeleireiro, o senhor Alberto, pessoa muito simpática, juntamente com seus ajudantes, realizavam verdadeiras seções de tortura tentando fazer com que meus cabelos escorridos se tornassem encaracolados como os de São João. Usava um produto fétido que era a coqueluche do momento chamado Tony. E lá ia eu, mais uma vez tornar-me a cobaia da "mana" ( ela era a única que conseguia essa proeza) onde após exaustivas horas, sofria uma radical transformação do liso para o cacheado (meu Deus, como doíam àqueles desgraçados " bigudinhos", era assim que chamavam aquelas peças que enrolavam nos meus cabelos com a finalidade de encrespá-los). Vai entender a moda, hoje todos esticam para alisar, antes enrolavam para encrespar.<br><br>Bem, nem essa maratona toda conseguia modificar por muito tempo aquela menina"espevitada" como era chamada. Isso deixava minha vizinha, Dona Luzia, que morava no quintal de minha cunhada Lurdinha, na Rua Samurais, muito brava, quando me aproximava de sua casa, era como se visse " o demônio" chegando, corria a interpelar-me gritando do fundo do quintal:<br>-“Sônia, Soniaaaaa,tua mãe está te chamando!".<br><br>Isso era constante e proposital e vim a descobrir mais tarde que ela não me queria por perto. O tempo passou e tive oportunidade de lembrar com essa ilustre senhora esse fato, onde ela me confessou que achava meu jeito de ser muito "despachado"e que eu não me sujeitava às regras de comportamento disciplinares de uma mocinha na época. Graças a Deus! Eu hein! <br><br>Sou assim até hoje. Prezo a honestidade, o bom caráter, o respeito, a caridade, a amizade, mas sou autentica e não levo desaforo para casa. Não sou barraqueira, se é o que estão pensando, dou o troco com classe.<br><br>Pobre Dona Luzia, hoje ela mora em Valinhos e eu aqui no mesmo bairro, onde cresci. Para seu desespero, casei-me com o filho dela o Antonio Carlos, lembram dele? Mesmo contra a vontade dela, agora somos grandes amigas, e ela teve que se conformar com a " espevitada" da nora dela, mas que a respeita e faz com que sinta orgulho de ser sua sogra.<br><br>E lá se foram 55 anos. A casa onde morava, esquina da Rua dos Samurais com Avenida das Cerejeiras não existe mais, foi demolida. Muita coisa mudou naquele pedaço, porém meu coração fica apertado quando passo por lá e lembro como eram as casas, as pessoas, que ali moravam. Aos que se foram, minhas eternas saudades, aos que ali ainda estão o meu muito obrigado por fazerem parte da minha vida.<br><br><br>E-mail: [email protected]