Todos os dias às 22h30 o Polidoro Dagoberto, mais conhecido nas rodas da malandragem do centro da cidade de São Paulo por Boca, estava acostumado a tomar o bonde número 35 na Praça do Correio rumo ao bairro da Lapa.<br><br>Antes, porém, passava em um boteco imundo em frente aos Correios, onde trabalhava, e costumava pedir uma cerveja gelada espumante. Trazia espetado na lapela do paletó um distintivo do esporte clube Corinthians Paulista e, mais abaixo, alfinetada, um escudo da “Cobra Está Fumando” que ganhara do exército quando da chegada ao Brasil, depois de participar da Segunda grande Guerra Mundial.<br><br>Naquela noite o Boca tinha recebido o salário do mês e estava disposto a ganhar alguns trocados a mais, jogando no palitinho com os colegas de serviço. O Serapião (vulgo Gonô) que trabalhava na mesma seção do Boca, participava ativamente com o Ditão, o Pé Rachado, o Carne Frita, o Nino do Paissandu e o Nego Fulô daquela disputada rodada de palitinhos. <br><br>Todos eles ali reunidos, representavam a fina flor da malandragem no bar do Jeca na esquina das avenidas Ipiranga e São João. O Aristóteles que tinha o nome de um grande filósofo, não passava de um medíocre conferente de cartas, e costumava também, se juntar ao grupo para a disputa no jogo de palitinhos. A coisa começava devagar, com os competidores em circulo concêntrico, com os punhos fechados. Na mesa forrada de linóleo marrom já havia algumas garrafas da cerveja espumante esparramadas entre copos cintilantes. O Boca onisciente de tudo com um palito de fósforo esmagado entre os dentes ditava a chamada pela ordem:<br> – “Doze!”! – disse de inicio, piscando o olho para o Carne Frita:<br> – “Sete” – gritou o Ditão em seguida.<br><br>E os punhos fechados abriram-se automaticamente de uma só vez, com os palitos esparramados na palma das mãos. O Ditão abriu a mão e contou, tinha acertado o número. O Boca precisava de grana. Já havia programado para o dia seguinte, que iria apostar nas patas dos cavalos no Jóquei Clube e, em um ginete dito como um azarão. Tinha ele um pressentimento, uma barbada.<br><br>Se aquele animal entrasse em primeiro lugar, ganharia uma boa grana. Estava fazendo planos e mais planos. Caso o seu palpite desse certo, iria pedir a mão da Esmeralda em casamento. Enquanto isso não acontecia o jogo de palitos, continuava correndo solto no bar do Jeca. Àquela hora avançada da noite, o Boca já tinha tomado todas. O olho esquerdo se parecia com chispas de um relâmpago azulado com o circulo orbital em volta na cor escura de tempestade e estava focado na figura disforme de um gato preto imaginário. A vista da direita também edemaciada tentava olhar fixamente para um borrão disforme na linha do horizonte para o vulto inexistente de um grande peixe morto. A esbórnia já era um fato consumado.<br><br>O Boca estava perdendo a compostura e a calça também, naquele jogo azarado. Metade de seu suado e mirrado salário já havia evaporado no seu desgastado e minguado bolso raspado. Tinha ainda que pagar as rodadas perdidas de cerveja, além das apostas que tinha feito em dinheiro. O chefe, o Nego Fulô, estava preocupado. Mais um pouco e o Boca não iria ter nem o dinheiro para pagar a passagem do bonde da Lapa. Resolveu, a muito custo intervir e convencer o Boca, que tinha que ir embora. Iria acompanhá-lo até sua casa. Quando lá chegou a Maria Tereza já afeita as bebedeiras do tio atendeu a porta.<br><br>Depois de uma serie de palavrões, o Boca gritava várias frases desconexas afirmando categoricamente que o chefe da seção lhe havia roubado todo o dinheiro do pagamento. O chefe estava deveras rancoroso. Além de tirá-lo de uma solene enrascada ainda estava sendo acusado por uma coisa que não havia feito. No entanto, se conteve para não lhe dar um bom soco no meio das fuças. O homem se despediu da moça, abriu a porta da rua, bateu com toda a força e saiu. O difícil agora era convencer o Boca a tomar um bom banho frio de chuveiro e dar-lhe uma reforçada xícara de café forte para amenizar o estado.<br><br>Quando acordou no dia seguinte as fábricas da região já apitavam o meio dia. O Boca, não se lembrava de nada do dia anterior. Estava deveras entorpecido. A cabeça doía-lhe um bocado. Colocou um saco de gelo na fronte, enquanto tomava um efervescente para o estomago irritado. Afinal, infelizmente naquele dia não dava para ele ir até a Cidade Jardim, jogar nas patas daquele azarão que ele havia planejando já fazia algum tempo. Se por ventura desse na cabeça lhe renderia um bom dinheiro.<br><br>Mas estava quebrado. Quebrado física, psicológica e monetariamente. Tinha feito uma promessa para a Esmeralda. Caso ganhasse nas corridas de cavalos, casaria com ela e iria assumir o pequeno Benê, filho legitimo dele e que iria completar um ano de idade. Diante de tantos obstáculos, o Boca tomara uma decisão. Estava firmemente convencido de que precisava dar um jeito na vida. Não esperaria mais. O jeito agora era apelar para o Nicácio, o Barba Azul um conhecido seu.<br><br>O homem morava lá pelos lados do Alto da Boa Vista, numa travessa da Rua da Paz. O Barba Azul tinha uma pequena água furtada, de sua propriedade, naquele bairro da zona Sul. A noiva tinha duas irmãs. A Raiza e a Alzira ambas prestadoras de serviços domésticos na residência do doutor Epaminondas Meneses, um próspero comerciante da região.<br><br>O Boca estava decidido. Iria pedir um pequeno favor ao Nicácio, o Barba Azul. Queria alugar um quarto e cozinha nos fundo do quintal da residência do homem. O aluguel ali era barato e o que ganhava nos Correios cabia perfeitamente no seu bolso. O resto, Deus iria prover.<br><br>Combinou também, com o pretendido padrinho o José Carvalho, um escurinho alto e forte que se comprometeu que iria pagar a festa do casamento. O Boca foi até a Vila Nova Conceição, na Rua Afonso Brás, onde havia uma distribuidora de bebidas e encomendou dois barris de chope, duas dúzias de cerveja, uma dúzia de guaraná, duas dúzias de soda limonada, e mandou a conta para o Carvalho pagar. O bolo de casamento, os salgados, os cajuzinhos, os brigadeiros, seriam de responsabilidade da Alzira e da Raiza. O terno azul marinho da cerimônia religiosa teve que pedir emprestado para o Luizão, o noivo da Raiza, um velho e conhecido puxador de samba do cordão da Unidos da Paz. A noiva também, não se fez de rogada. Pediu emprestado um par de sapatos branco, e um vestido de organdi lilás para a viúva do Serafim, atual dona da padaria Lírio da Chácara.<br><br>O Boca fez uma promessa para São Jorge, se tudo desse certo, iria agradecer ao santo pela ajuda divina. Enfim tudo estava preparado. Só faltava agora, marcar o dia e a hora na igreja de Santo Amaro. O padre, porém, estava desconfiado e invocado. O Boca não tinha sido batizado, não fizera a primeira comunhão, não fora crismado e não sabia rezar nenhuma oração. Era agnóstico e ao mesmo tempo, ateu. Antes da<br>cerimônia religiosa, tinha que fazer todos os rituais religiosos exigidos pela igreja católica. Deram-lhe uma vela, quase da sua altura. E o sacerdote foi benzendo a cerimônia. Foi espargida a água benta sobre sua cabeça:<br> – “Eu lhe batizo em nome do pai, do filho e do espírito santo, amém”.<br><br>Depois se confessou dos pecados que por sinal eram muitos, e fez a mea culpa; vinte padres nosso, doze aves Maria, dez salves rainha, todas escritas em uma cartolina branca porque ele não sabia nenhuma oração de cor. Feito isso, tomou a hóstia sagrada e comungou. Fez a primeira comunhão, foi também crismado, tudo oficializado em uma pancada só.<br><br>Finalmente o casamento. Entraram triunfantes pela nave central da igreja ao som da marcha nupcial. A Esmeralda não cabia em si de tantas felicidades. Havia conseguido a duras penas é verdade, para sempre, aquela união estável que agora estava divinamente abençoada por Deus naquele seráfico altar da igreja matriz do Largo Treze de Maio, no bairro de Santo Amaro.<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>