Belém, um bairro inesquecível

Era o ano de 1954 e eu tinha nove anos quando fui morar no Belém, bairro melhor do que aquele em que eu morava antes (Vila Formosa). Pelo menos aí teríamos água encanada e maior disponibilidade de condução. Na Vila Formosa, se quiséssemos ir até o centro, teríamos que pegar um ônibus até o Belém, no Largo São José e de lá pegar outro até a Praça Clóvis Beviláqua. Mas aí não. Era tudo o que a gente achava de comodidade.<br><br>Nossa rua, a Fernandes Vieira, era uma rua de terra, em frente à atual Estação Belém do metrô. Brincar na calçada, de calção (ainda não se dizia "short"), era qualquer coisa de maravilhoso. As mães, no final da tarde, colocavam cadeiras na calçada e a gente brincava muito, sem preocupações, principalmente no verão. Eu fui estudar no Grupo Escolar Amadeu Amaral, que fica no Largo São José do Belém. Lá tinha a ‘Dona’ Babá, que servia sopa no intervalo das aulas. Ficava em frente à Igreja de São José, onde fiz minha primeira comunhão. Ficava a quatro quarteirões de casa.<br><br>No final da Rua Toledo Barbosa, já quase no Tatuapé, ficava a biblioteca onde eu ia estudar todas as tardes. Lá eu fazia as lições da escola. Essa biblioteca era como uma escola, daquelas que a gente guarda no coração. As funcionárias ficavam espreitando para ver se cada criança fazia sua lição. Aí sim, a criança podia ir para a sala de jogos, a sala de gibis e a sala de pintura. Levávamos lanche, como se fosse uma escola. Lá plantei um limoeiro. Ia para a biblioteca andando pela linha do trem, fazendo uma farra com a criançada que ia comigo.<br><br>Um dia chegou a luz de rua, e depois o bonde, que passava na Rua Herval, a uns 30m de nossa casa. E depois o asfalto. Quando asfaltaram nossa rua, foi uma verdadeira revolução. Os caminhões levavam para lá muita areia e faziam aqueles montes enormes e a gente então aproveitava para brincar de escorregar nos montes de areia. Depois do asfalto, já dava para brincar de "mãe da rua", de "lateiro", de "esconde-esconde". Também pulávamos corda.<br><br>Quando o bonde vinha pela Rua Herval, o motorneiro que a gente conhecia, o Mineiro, vinha com aquele "dim-dim" e a gente já sabia que era ele. Era só correr para a esquina e esperar o bonde chegar. O Mineiro diminuía a velocidade e pegávamos o bonde andando. Chamava-se a isso de "chocar o bonde". Íamos até o ponto final de carona, que ficava na Avenida Álvaro Ramos.<br><br>No outro quarteirão da nossa rua ficavam as casas do Matarazzo. Era um quarteirão inteiro de sobrados iguais, todos de tijolos à mostra – Rua Fernandes Vieira, Rua Júlio de Castilhos, Avenida Álvaro Ramos e Rua Herval. Na Fernandes Vieira ficava a Vila Matarazzo. Ali, sem preocupações, também brincávamos de pique, jogávamos pedrinhas naqueles saquinhos de pano que nossas mães faziam e, como tinha ali um clube de bairro, o Clube 23 de Maio, onde meu pai era diretor, as festas juninas eram feitas na Vila Matarazzo, por causa do espaço. A sede do clube ficava na Rua Julio de Castilhos, em espaço de um armazém desocupado, onde tinham também apresentações de peças de teatro. Quando eu era adolescente participei de algumas esquetes de comédia.<br><br>Eu nunca tive uma bicicleta, porque nossa família não podia dar-se a esse luxo, mas andava na bicicleta do Milton ou no patinete do René. Dávamos a volta no quarteirão. Éramos quatro amigas: Deise, Darci, Dolores e Sonia. <br><br>Na Rua Toledo Barbosa, ao lado de onde hoje é o metrô, tinha uma chácara, onde se buscava a verdura fresquinha para as refeições. Um dia acabaram com a chácara e veio um circo que ficou muito tempo por lá e a gente, como era criança, não podia perder a chance. Depois, quando o circo foi embora, construiu-se ali um conjunto de casas e um prédio (hoje tem a estação do metrô).<br><br>Na rua onde começava a nossa, tinha uma fábrica, a Nadir Figueiredo, que no carnaval reservava um espaço de um salão, para a criançada brincar. As crianças brincavam com confete e serpentina. Na mesma rua tinha a ACM (Associação Cristã de Moços) com sua quadra de esportes, onde muitos jovens iam jogar vôlei e basquete.<br><br>Uma vez, na Rua Doutor Clementino, paralela à nossa, veio um rinque de patinação. Minha irmã mais velha, que começara a trabalhar, comprou um par de patins e, quando ela ia para o trabalho, eu os subtraía, para tentar patinar, mas nunca consegui, porque levava muitos tombos. <br><br>Nessa rua, quando criança, brinquei, depois vivi minha adolescência e meu primeiro namoro e minha primeira desilusão. Ali, também, sonhei com meu primeiro baile, que foi no Clube Piratininga (minha irmã me levou). Ali entendi o que era ter um amigo de verdade. No Belém aprendi a ver a vida, a valorizar as pequenas coisas que são tão importantes. Na doce Rua Fernandes Vieira…<br><br><br>E-mail: [email protected]