Em qualquer atividade humana existem os injustiçados. Trabalham com dedicação, competência e seriedade, mas por circunstâncias ignoradas não têm o indispensável reconhecimento. No futebol não é diferente. Quando comecei a me interessar por esse esporte lá pelos anos de 1949 ou 1950, o grande goleiro do Brasil era Oberdan Cattani, do Palmeiras.<br><br>Alto, ágil, elegante chegava a zombar dos atacantes com suas incríveis defesas, apenas com uma de suas imensas mãos. Poucas oportunidades (nove vezes) teve ele na seleção brasileira. Na Copa do Mundo de 1950 não foi sequer convocado. O técnico Flavio Costa preferiu o Barbosa do Vasco e o Castilho do Fluminense.<br><br>Inteligente, ágil, bom driblador, chute certeiro. Antes mesmo do Didi ele já fazia a bola dar piruetas em seu trajeto antes de se aninhar no fundo das redes. Assim era Claudio Cristovan do Pinho, "o gerente", ex-Palmeiras e Corinthians. Nunca mereceu a confiança dos treinadores. No jogo contra a Suíça em São Paulo, na copa de 1950, Flavio Costa "agrediu" os paulistas escalando na ponta um jogador de defesa, Alfredo, reserva do Vasco. Castigo – 2×2. Inconcebível.<br><br>Waldemar Fiume – "O Pai da Bola”, durante 17 anos vestiu a camisa do Palmeiras. Grande ídolo de meu Tio Santim que veio de Teramo, nos Abruzzi, para ser palestrino e barbeiro na Rua Anastácio, na Lapa. Envergonhava-se, dizia, por ter um sobrinho corintiano. Como Junqueira, Fiume está imortalizado em busto de bronze no Parque Antártica. Jamais jogou pela seleção. Cegueira e incompetência dos "treineiros" sabichões<br><br>Outro craque esquecido foi Helvio, o "Piteira", grande zagueiro do Santos e várias vezes titular da seleção paulista. Formiga, que sabia das coisas, declarou com autoridade que foi um dos mais completos beques que conheceu. Mas os técnicos preferiam Juvenal, Bellini, Brito e outros que preferiam os chutões, incapazes de sair jogando. "Arranca-tocos", como se diz lá no interior. Píndaro do Fluminense, que ao lado de Castilho e Pinheiro formou um dos melhores trios finais da história também não teve chance.<br><br>Podemos ainda lembrar Dirceu Lopes, doze anos titular absoluto do Cruzeiro, sempre preterido por jogadores menos brilhantes. Pagão, do Santos, rápido e estilista, esquecido porque os "peitos de aço", "os tanques" estavam na moda. Toninho Guerreiro pentacampeão paulista – em 1967, 1968 e 1969 pelo Santos e em 1970 e 1971 pelo São Paulo. Em 1970 foi dispensado da seleção para dar lugar a Dario, o Dadá, protegido do Presidente Médici. Uma aberração.<br><br>O símbolo maior desses olvidados é Ademir da Guia. Admirado por todas as torcidas, jogou 901 vezes pelo Palmeiras e apenas 12 vezes pela seleção. Passadas largas, cabeça erguida, elegante e, coisa admirável, pouco caia em busca de faltas inexistentes. Jogava o fino. Dava gosto de vê-lo em ação. Também mereceu um busto nos jardins do Parque Antártica.<br><br>A lista é imensa. Os prezados amigos que tiverem a paciência de ler este texto pouco brilhante, mas honesto, se lembrarão de outros tantos esquecidos. O que os aproxima é que não eram uma exigência da torcida de seus clubes, mas de todos que admiram e gostam do futebol limpo, bonito, alegre. Os técnicos teimosos, turrões, arrogantes e autoritários serão esquecidos. Seus nomes, levados pelos ventos das deslembranças, irão para os aterros dos lixões, onde ficarão para sempre. Ignorados. Mas, estes ídolos inesquecíveis que encantaram as platéias de todos os estádios permanecerão na memória e no coração dos amantes do verdadeiro jogo da bola.<br><br><br>E-mail: d–[email protected]]