Ano novo, novamente…

Mais de setenta anos passaram-se.
Setenta e tantas passagens de anos…

A memória, já apresentando falhas, tenta recordar, as melhores coisas.
Esqueçamos coisas ruins…
Durante a noite, acordando na madrugada, a memória reprisa tantos fatos.

E nesta época, quando o ano se vai e outro vem chegando, procuro buscar algo especial, mas não há nada especial em todas estas passagens, nada marcante… E foram muitas as passagens de ano.

E de repente, lá do fundo, vem algo diferente e real…
Morávamos em um cortiço, na Vila Nair, no Ipiranga. Eu devia ter talvez entre nove e dez anos de idade…

Não havia quintal para brincar, só a rua; mas lá no fundo da "comunidade" (hoje falam assim) havia um terreno vazio, onde, nós crianças, tínhamos um pequenos espaço para nossas aventuras.

Não sei por que, num primeiro dia de ano, eu estava sozinho; os amigos talvez tivessem ido a casa de parentes… E perdido fui até os fundos, a caça de algo diferente.

E… Consegui…

Na cerca, mal feita, entre arames, amoreiras, cactos… Um filhote de pardal tentava um vôo. Com muita dificuldade pude tomá-lo nas mãos.

Eufórico, imaginando mostrá-lo aos amigos ausentes, como uma grande conquista, desci até minha casa.

Ao mostrar o troféu a minha mãe, ouvi, apenas um:
– “Coitadinho, é melhor soltá-lo”.

Retornei ao local, onde o tinha capturado, abri a mão e ele batendo as asas com dificuldade se foi, sumindo no meio dos arbustos, marcando a única passagem de ano que me lembro claramente.

E-mail: [email protected]