O livro

Todos os livros que leio eu repasso para amigos ou velhos e conhecidos leitores. Acho uma covardia, um egoísmo besta, ficar com eles apodrecendo na estante. Livros foram feitos para serem lidos, para terem suas páginas massageadas fazendo exalar aquele cheiro de papel novo. Essa é a sua missão.

Tempos atrás surgiu pela internet o chamado “bookcrossing”, ou seja; é o ato de abandonar propositalmente um livro em um lugar qualquer da cidade para que um estranho o encontre, leia-o e passe-o adiante. Só que tem um detalhe: eu nunca doei livros para estranhos e duvidei que essa ideia pudesse dar certo.

Embarcando nessa nova onda, optei por um autor nacional, ou melhor; pela união de vários deles. Achei que “Os cem melhores contos brasileiros do século” seria um ótimo livro para que fosse esquecido em algum lugar. É uma coletânea de pequenas obras primas da nossa literatura. Impossível alguém não se emocionar, se apaixonar e enlouquecer por tão belos contos.

Havia lido e relido, mas relutava em largá-lo num canto qualquer da cidade. Escrevi rapidamente uma dedicatória explicando a razão de aquele livro estar perdido, desejei uma boa leitura e expressei a vontade de ele fosse passado adiante para um maior número de pessoas. No rodapé esquerdo da página eu escrevi meu e-mail.

Mas onde eu iria deixá-lo? No Mercadão nem pensar! Dentro do metrô? Em um balcão de padaria? Andando por aquele piso imaculadamente limpo de uma grande catedral, eu me sentia como que cometesse algo grave, um pequeno grandioso delito, um pecado. Teria pavor que alguém me chamasse para devolver o livro que supostamente estivesse esquecido. Bem, resolvi deixar-lo em um banco da Catedral da Sé. Saí sem olhar para trás. É uma sensação gostosa e muita estranha também. Imaginava quem poderia encontrá-lo e todas as fantasias vinham na minha cabeça.

Dez dias depois recebi um e-mail, talvez o mais bonito que tenha recebido em minha vida. Fiquei muito emocionado, surpreso de ter superado o meu pessimismo inicial e feliz em saber que no mundo há muito mais gente interessante do que possamos imaginar. Hoje, ainda me pego pensando em quais outras mãos aquele meu livro foi parar e fico realizado com essa dúvida.

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