Depois de vinte e seis anos de separação eu resolvi homenagear aquele que por toda uma vida, foi um batalhador: meu pai. <br><br>Homem inteligente e talentoso… Viveu apenas 69 anos e em nenhum tempo de sua existência foi devidamente valorizado, nem mesmo por nós, seus familiares. Tinha alma de artista e hoje o comparo aos grandes mestres que viveram e morreram no anonimato.<br><br>Meu pai começou a trabalhar bem cedo, na loja de ferragens de meu avô. Quando jovem, fez curso de desenho e pintura na escola de Belas Artes, e sua grande mágoa, foi não contar com a presença de nenhum membro de sua família, no dia da formatura e entrega dos diplomas, enquanto seus colegas festejavam abraçados pelos que lhe eram caros.<br><br>Cursou também eletrônica, tanto que montou até um rádio, e uma rádio vitrola com um som excelente, aprendeu tapeçaria e foi ele que sempre reformou nossos antigos estofados. Apesar de não ser religioso, esse sentimento sempre apareceu em sua arte, nos quadros pintados a crayon onde a Madona segura nos braços o Cristo morto, representação de uma obra famosa, Cristo orando no Monte das Oliveiras e em escultura ele esculpiu a cabeça de Cristo com a coroa de espinhos. Todos muito lindos. Esses quadros, um dia foram sorteados pela minha avó, entre as irmãs e meu pai que acabou ficando com o que ele mais gostava: um crayon onde uma Deusa grega, que representa o teatro tem nas mãos uma máscara que simboliza o Drama e a Comédia.<br><br>Meu pai pintou também muita natureza morta, todos em óleo sobre tela. Sua última obra foi o rosto triste de um palhaço, que ficou inacabado. Muito sensível, suas pinturas demonstram isso. Era habilidoso até na confecção de nossos brinquedos, pois construiu uma casinha de bonecas que dava para uma criança entrar. Fez um pequeno palco onde minhas primas, irmãs e eu montávamos teatrinhos, fez fantoches em papel mache e um balanço que pendurou num galho da ameixeira, no fundo do quintal e muitas outras coisas que seria impossível citar.<br><br>Mas de todas as artes, o que ele gostava mesmo era de esculpir. Conta meu tio Rodolfo, que nunca se esqueceu de uma escultura feita pelo meu pai na areia do jardim, quando a casa dos meus avós passou por uma pequena arrumação, foi lá pelos anos 30, na época da Revolução Constitucionalista.<br><br>Segundo meu tio, papai esculpiu o corpo de um pracinha morto, com toda a indumentária e fuzil, uma perfeição, todos que passavam paravam para admirar, com certeza foi uma homenagem dele a todos os jovens que perderam a vida lutando por São Paulo.<br><br>A obra ficou por alguns dias exposta, até que a areia foi usada para rebocar as paredes da casa. Meu pai foi sempre um guerreiro e trabalhou até um pouco antes de falecer. Mesmo depois de aposentado, quando poderia descansar, continuou na lida e aí trabalhou mais ainda. Não tinha fim de semana, férias ou coisa assim. Acordava no meio da noite com uma inspiração para criar um desenho, slogan ou um logotipo para um produto qualquer, pois nessa época ele trabalhava com desenho publicitário. Cobrava uma ninharia por suas criações e tinha vergonha de cobrar, achando que o que pagassem pelo seu trabalho estava de bom tamanho, e era um sufoco aumentar um pouquinho pelo seu serviço, bem ao contrário dos dias de hoje.<br><br>Trabalhava em uma salinha improvisada, mas ficava radiante quando via o resultado do seu trabalho. O talento de meu pai ficou incógnito aqui na terra, mas com certeza lá onde ele se encontra deve sentir-se feliz e orgulhoso pela obra meritória que deixou: a honradez e o desapego, principalmente para nós sua filhas e esposa, e em sua homenagem deixo aqui esta mensagem sem nenhuma pretensão, mas que vem do fundo do coração de sua família.<br><br> No jardim de minha casa<br> Meu pai plantou uma roseira<br> De rosas bem perfumadas<br> Cor de rosa e faceiras<br><br> Olhando as viçosas rosas<br> Ouvia seu comentário<br> Para ter tanta beleza<br> É preciso de trabalho<br><br> Agora o principal<br> Disto não pode esquecer<br> Na hora em que for plantar<br> Pense no que espera colher<br><br> E por todos esses anos<br> A roseira floresceu<br> Produzindo rosas e rosas<br> Dos ensinamentos que meu pai me deu<br><br><br>E-mail: [email protected]