Um tempo no passar do tempo

Eis o inverno novamente; o outono fugiu tão depressa como chegou. A noite alastrou-se densa, e a umidade gelada entorpeceu os meus movimentos; apesar de não chover, senti o rosto molhado e hirto de frio. Uma rajada de vento soprou de noroeste para sudeste naquele vasto vale do Campo Limpo e do Capão Redondo. E na noite clara a lua cheia iluminava a copa das árvores ao redor das chácaras no entorno da curva em "S", em um trecho da Estrada de Itapecerica da Serra próximo do Colégio Adventista.<br><br>Lá se vão alguns anos e essa recordação ocupa frequentemente a minha memória. Cinqüenta anos passados e lembro-me como se fosse hoje daquela noite fria de Junho.<br><br>O ano era 1961. O lugar na época era quase um deserto. Apenas um reduzido casario de operários compunha aquele cenário bucólico. Eu tinha apanhado o ônibus Salvador Correia que saia da Rua Formosa no Anhangabaú às 18h. Quando lá cheguei eram quase 20h.<br><br>Alguns cães vadios ladravam desfilando soltos pelas ruas desertas do bairro. Apenas uma luz branca, difusa, filtrava de uma padaria ao lado de uma serraria abandonada. Alguns homens vindos do trabalho se reuniam no entorno do balcão bebericando a velha cachaça do alambique que o proprietário trazia especialmente para comercializar naquela distante região de São Paulo. Ali, era o ponto de encontro dos operários do novo bairro que começava a se formar.<br><br>Enquanto eu fazia comigo mesmo uma reflexão da situação, cheguei próximo da modesta casa incrustada junto ao morro do "S" na subida da estrada de Itapecerica. Como havia combinado, jogaria uma pedrinha na janela do quarto dela. Antes disso,depois do almoço, tinha lido o bilhete que ela havia escrito e me dado na parte da manhã na saída do banco da Província do Sul na Rua Boa Vista, onde ela trabalhava. <br><br>Naquele mesmo dia, me havia convidado para ir até lá. Aquele pedacinho de papel garatujado pelas mãos de Adriana trouxe-me um pouco de esperança. Efetivamente, a mãe dela era a divisão de águas daquele aborrecido acontecimento; não simpatizara muito com o meu modo de ser. Já tinha algum tempo que nos desentendemos. Havia entre eu e ela um pequeno abismo. No entanto aquele bilhete de Adriana trazia um aparente alento. Para não causar nenhum dano, aquela minúscula pedrinha atirada em sua janela era o sinal combinado para o nosso encontro. Adriana deveria aparecer no jardim da casa trazendo consigo uma vestimenta qualquer. Iria até a casa da costureira.<br><br>Aquilo, no entanto, era apenas um pretexto para que pudesse me ver. Vi o seu vulto esgueirando-se pelo sombreado de uma quaresmeira no jardim de sua casa. Senti tocar-me no ombro. Ficamos ambos mudos por alguns instantes, um diante do outro. Contudo, cogitei não expô-la ao constrangimento de sermos descobertos pela mãe. Mas não havia outro meio razoável de combinar aquele encontro. Ela morava longe do centro da cidade. Depois de um tempo, finalmente ela quebrou o silêncio:<br> – “Isso não pode mais continuar assim! É preciso que encaremos a realidade e façamos as pazes com mamãe. Ela se mostrava afável sem nenhum ressentimento”.<br><br>Olhávamos um para o outro, com as mãos entrelaçadas, dizendo de tudo um pouco, como dois namorados apaixonados. Ali naquela lonjura não havia muita escolha de lugar. Achamos uma pedra ferruginosa no meio do caminho e nos sentamos. A noite estava fria, porém, clara e estrelada:<br> – “Esperei que viesse mais cedo. Assim poderíamos aproveitar um pouco mais o tempo” – disse ela olhando-me.<br><br>Observo Adriana e vejo que em seu rosto há uma sombra de preocupação. Quando nos víamos esporadicamente na saída do banco na Rua Boa Vista havia alguns empecilhos e nós nos separávamos assim como nos encontrávamos. Não havia efetivamente nenhuma condição de reconciliação.<br><br> Correram os anos e tornei a vê-la em um baile da União Cultural Brasil Estados Unidos, nas imediações da Câmara Municipal de São Paulo. A dança era ao som da orquestra e coro de Ray Conniff; rodopiamos com uma espécie de doloroso prazer e demos alguns giros pelo salão e nada mais. E no intercalar do tempo, apenas alguns momentos felizes foi o que nos restou de tudo isso. Naquele momento consultei o relógio. Já eram dez e meia da noite. Agora para não despertar suspeitas da mãe era hora de levá-la de volta para casa. A padaria que dantes estava aberta agora já havia cerrado suas portas. Um cão vadio passou por nós e farejou o ar. Era enorme. Se resolvesse abrir a boca estaríamos irremediavelmente perdidos.<br><br>Junho, noite de inverno, silêncio absoluto sobre os campos desertos do lugarejo. Ao longe pude lobrigar a luz de um lampião de querosene piscando no meio da mata. Devia ser a casa de um sitio. Volto para o ponto do ônibus. Nenhuma alma por perto. Apenas o latido intermitente dos cães ressoa no ar. Uma capelinha de São José velha, desgastada pelo tempo, perdida naquela paragem pareceu-me abandonada. Ali era a parada do ônibus.<br><br>Apesar de tudo, sentia-me contente de ter estado com Adriana. Um homem surgiu das entranhas da noite e me cumprimentou:<br> – “Boa noite senhor!” – disse-me, como se aquilo fosse uma sentença.<br> – “O senhor está esperando o ônibus para a cidade?” – perguntou.<br> – “Sim!” – respondi.<br><br>Olhou-me pensativo como se estivesse prestes a dar-me uma má noticia:<br> – “Não tem mais ônibus hoje, moço. O último passou às 22h”.<br><br>Olhei com aflição para a longa Estrada de Itapecerica. Estava muito distante de Santo Amaro, do Largo Treze de Maio. O que fazer agora? O jeito era começar a caminhar. No meio da escuridão da estrada para o meu animo espiritual havia apenas o reflexo da luz da lua que graças a Deus teimava em clarear o caminho. Se chovesse estaria irremediavelmente perdido. Mato da esquerda, mato da direita, sem nenhum abrigo que pudesse dispor em caso de chuva. Apanho um lenho e fico na espreita, vigiando se algum animal pudesse aparecer no meio da estrada, saindo de algum sitio das redondezas para me atacar. <br><br>O caminho era longo. O centro de Santo Amaro ainda estava muito longe. Passei pela Vila das Belezas onde algumas casas já apagadas as luzes dormitava silenciosamente naquela hora avançada da noite. Atravesso a ponte velha sobre o Rio Pinheiros e entro na Avenida João Dias. Estava exausto daquela tensa caminhada. Estava com medo não das pessoas mais sim de algum animal que pudesse aparecer de algum sitio. Por sorte naquela época, São Paulo era pacifico repleto de trabalhadores, gente boa, pacata, humilde e respeitosa. Não havia violência. Depois de muito caminhar finalmente cheguei ao Largo Treze. O recurso seria o velho bonde que corria a grandes intervalos, porém, a noite toda.<br><br>Na ocasião eu morava no Alto da Lapa. A viagem ainda era longa. Aquele bonde ia até o Instituto Biológico na Vila Clementino, fazia o retorno e voltava para Santo Amaro. Tinha que pegar outro que subisse a Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, entrasse na Rua Domingos de Moraes, descesse a Avenida da Liberdade até o final na Praça João Mendes. De lá caminharia a pé até a Praça do Correio para tomar o 35 com destino ao bairro da Lapa. Mas a minha odisséia não acabava ali. Subiria a pé toda a Rua Pio XI, até a Rua Cerro Corá onde eu morava.<br><br>Cheguei á minha casa às 7h com o sol dando seus primeiros acordes para os lados do nascente. Fiquei remoendo aquela situação. Valeria a pena tamanho sacrifício para ficar apenas alguns minutos com Adriana? Deveria encerrar aquele romance de vez? Estava decidido. Não mais a procuraria. Afinal, porque tanta descriminação e humilhação; ela que fosse feliz com outro rapaz. Apesar de tudo fomos enamorados durante três anos. Agora resta apenas a recordação daquele tempo no passar do tempo em que pretendíamos ser felizes, mas infelizmente, nunca fomos.<br><br><br>E-mail: [email protected]