Todos os dias, mesmo chovendo, sempre tinham uns quinze moleques correndo atrás da bola no campinho do final da rua. Mas naquele dia, dia de Natal, só três apareceram.
Eu tinha saído de casa escondido, o Nilo falado que ia para casa da tia, e Edu, colocado pra fora pela mãe para sossego da família. Estávamos esperando o Claudinho que estrearia o presente que ganhou do avô, uma bola de couro Drible nº 5. Como ele estava demorando, fomos até sua casa:
-“Vamos jogar Claudinho!” – gritamos do portão ao vê-lo passando sebo na bola.
-“Espera eu acabar” – respondeu ele, demonstrando arrependimento por ter nos chamado.
Depois alguns minutos, até pensamos em pegar a bola na marra, mas o Bidu, o cachorro da casa, rosnava toda vez que alguém subia no muro. Quem deu um jeito na situação foi a senhora Helena, a mãe do Claudinho:
– “Claudio Luiz! Se você não parar com isso agora eu furo essa porcaria!”
A bronca foi merecida, pois ele tinha passado o dia naquela atividade, e antes de o açougue abrir, naquela manhã, ele já estava na porta para pedir um pedaço de sebo. Nós três aplaudimos Dona Helena.
Assim que Claudinho botou o pé na caçada, o Edu tentou lhe tomar a bola, que lisa como um sabonete, foi parar embaixo de um jipe estacionado um pouco a frente. O que ninguém esperava era que o motorista fosse arrancar naquele exato momento. Pelo barulho do estouro, aquela bola devia ser muito boa. O motorista, um rapaz de vinte e poucos anos, desceu, olhou para o que tinha sobrado da bola, e para nós, que estávamos desolados (o Claudinho estava mais para estado de choque) e sem falar nada, entrou novamente no jipe e foi embora.
No dia seguinte nós estávamos tentando animar o Claudinho, até prometendo juntar dinheiro para comprar outra bola para ele, quando o mesmo jipe, com o mesmo motorista, parou junto à calçada. Dessa vez o rapaz também não falou nada, e sem descer do carro, estendeu em minha direção, por eu estar mais próximo, uma bolsa de papel com um embrulho, e foi embora. Era outra bola de couro Drible nº 5. Nunca mais vimos aquele rapaz.
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