Muito se fala, neste site, de acontecimentos estranhos, que fogem à razão, à lógica. Visões entrevistas, pressentimentos, estranhas sensações em lugares de passado tenebroso. Sim, pois eles existem em toda parte, e São Paulo não foge à regra. Meu caso, porém, não trata de nada disso. O que não lhe tira a estranheza. Não vi vultos, nem ouvi vozes sussurradas em becos sem saída.
Ainda assim… Apenas como citação, no belíssimo filme de Woody Allen, "Meia Noite em Paris"- se não viram não sabem o que estão perdendo – o personagem principal, após ter estado num bar dos anos vinte com Hemingway, retorna logo depois, para não achar mais bar nenhum, apenas uma moderna lavanderia.
No livro "Memórias, sonhos, reflexões", Karl Jung relata ter estado em Ravenna, em companhia de uma amiga. Lá visitaram a antiga tumba de Gala Placidia, onde se maravilharam com os numerosos afrescos internos. Até que um dia retornou a Ravenna, para descobrir que a tumba não tinha, nem jamais havia tido, afresco algum. Alucinação? Mas e aí, ainda por cima compartilhada?
Pois bem. Márcia e eu caminhávamos, como fazemos quase todos os dias, pelas ruas do Brooklin Novo, todas elas velhas conhecidas. Mas neste dia passamos por um espaço que nunca me havia chamado a atenção. Uma larga entrada, com vários carros estacionados. Um deles, uma bela e impecável Alfa Duetto, conversível vermelho, com placa preta de 1974.
Embora um dos carros tivesse placa de “vende-se”, nada mais constava no local deserto, nem na Alfa. Nenhum letreiro comercial, ninguém para atender. O prédio fechado, como se jamais houvesse sido aberto. A Alfa era um belo espetáculo, e sou fã dessa marca italiana, da qual, em tempos mais amenos, cheguei até a ter uns exemplares.
Mas agora, no meu pobre status de aposentado, nem pensar! Ainda assim, sonhar é grátis, e quem sabe um dia eu pego um bolão na Mega Sena… E aí sim, vocês vão ver!
Em outro dia, novamente passeando pelo bairro, desta vez estava sozinho, tentei rever o belo conversível. Mas, onde? Não o encontrei, e sequer o pátio onde estava estacionado. Girei e revirei as ruas, bem familiares. Nada! Fora nesta? Ou naquela outra? Na Rua Flórida, na Rua Pensilvânia, na Rua Nebraska? Onde, afinal?
Tenho boa memória, principalmente visual. Localizo-me facilmente, como se tivesse um GPS interno, e sempre, instintivamente, acho o lugar buscado. Mas não desta vez. Como se o carro e o lugar nunca tivessem existido, a não ser na minha imaginação. Será o Alemão, aproximando-se aleivosamente?
Mas a Márcia estava comigo, e não me deixa mentir. Tento novamente achar o lugar perdido, só para tirar a teima? E não achando, como é que ficamos? Mais um episódio da série Mistérios de São Paulo.
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