Tudo era festa na Assembléia. O jogo havia terminado com a vitória do Brasil sobre a Tchecoslovaquia por 3 a 1. Brasil Bi-Campeão Mundial de Futebol no Chile. Fogos de artifício, balões coloridos um maior que outro flutuando no ar. De repente olhei para a rua e para minha surpresa vi uma cabra que caminhava rua abaixo. As pernas estavam um pouco esfoladas. Eu não sabia de ninguém que tivesse cabras no centro de São Paulo e portanto deveria ter pulado de um caminhão a caminho do mercado. Para um menino curioso de 11 anos não demorou muito pensar que teria um outro animal de estimação. Já tínhamos o Peri, o Nero, a Chiquita e agora uma cabra. Comecei a seguir o animal bem de perto, e nas proximidades daquele casarão amarelo, enorme, uma antiga mansão que existia no lado esquerdo da rua, esquina com Asdrubal do Nascimento, achei uma corda de juta de dois metros mais ou menos. O animal seguia meio assustado devido ao barulho dos rojões e entrou no campo de peladas, seguia em direção a Liberdade. Neste campo eu atraquei a bicha com a ajuda de outros moleques que haviam se juntado a mim, amarrei a corda no pescoço e estava voltando para casa. Quando passava por aquela vila com coqueiros na frente das casas – nesta época esta vila já estava decadente e eram casas de alugueis, penso que num passado distante foi um lugar refinado – fui abordado pelo residente, que com cara feia e más intenções perguntou: Menino, onde vai com esta cabra? Para minha casa, respondi e por ingenuidade disse a ele que a havia encontrado na rua. O malandro logo disse que conhecia o dono e que ele ficaria com a cabra para devolvê-la. Voltei para casa chateado. No dia seguinte a tarde, depois da escola passei na casa do amigo Aristides e fomos pegar goiabas daquelas 'bitelonas' entre o viaduto dona Paulina e o viaduto da Brigadeiro, perto do prédio do DAE (Departamento de Águas e Esgotos), segui pela Itororó- hoje 23 de maio. Depois de muito caminhar chegamos na vila e na primeira casa, para meu espanto, quando olhei no quintal que era todo aberto, vi a pele da cabra estendida numa espécie de varal. O que era para ser animal de estimação tinha virado churrasco no dia que o Brasil foi bicampeão. Naquele momento o menino de 11 anos começou a duvidar do ser humano.