Já comentei sobre os "Duques de Piu-Piu" em historias anteriores. Hoje vou falar sobre um deles em especial. Vou falar do meu irmão FRANCISCO RIBEIRO o "21".
Ele não tinha só esse apelido era também chamado de "magro" "magrão" "magrela" e outras coisas que tais.
Alem da magreza, o 21 tinha outros predicados que lhe eram totalmente característicos, dois deles em especial: o APETITE (comia tudo que lhe fosse oferecido ou não, a qualquer hora do dia ou da noite) e o MEDO (tinha medo até da própria sombra).
Tenho vários episódios sobre essas características e sei que voltarei a este assunto várias vezes. Hoje vou falar de uma ocorrência sobre o medo efetivo do 21.
Estamos em meados dos anos 50, entrava em cartaz nos cinemas de Sampa o badaladíssimo filme "VAMPIRO DA NOITE", diga-se de passagem, um dos melhores filmes que já assisti sobre o assunto.
Tão logo o filme entrou em exibição comecei a ser assediado pelo 21 com pedidos para acompanhá-lo ao cinema. Sabendo dos seus temores, me recusava dando como desculpa que era um filme muito assustador, que eu tinha medo etc. e tal.
Minhas recusas aumentavam, eu sabia, a vontade dele assistir o filme. Quando eu pude perceber sua inquebrantável vontade, concordei em acompanhá-lo, mas fiz algumas exigências.
Só iria assistir ao filme se fossemos na sessão da ½ noite, no Cine Magestic (ficava na Rua Augusta, uns 5 quarteirões da minha casa e que na saída eu não iria levá-lo até a porta de sua casa que era na Rua Conselheiro Ramalho). No primeiro quarteirão depois da subida.
Ele, no início não aceitou a proposta, mas ao perceber que eu não arredaria pé da mesma acabou concordando. Assim no primeiro sábado nos preparamos para a saída, e por volta das 11 hs. nos dirigimos ao cinema. Entramos e fomos sentar, a pedido do próprio, no balcão e na última fileira de poltronas. Sentei-me normalmente e ele, já tremendo de medo, sentou-se por sobre as pernas.
Conforme já disse, o filme era assustador mesmo e tirou do meu amigo diversos "ais" e muitos fechamentos de olhos ao longo da sua apresentação.
Enfim, terminada a sessão, saímos e começamos a andar em direção à minha casa que, lógico, estava situada antes da casa dele. No trajeto ouvi diversas solicitações e rogos para que eu o acompanhasse até sua casa. A todas eu resistia bravamente, deixando-o cada vez mais apavorado.
Enfim, depois de uma pequena caminhada estávamos de fronte a minha casa, paramos, eu me despedia e ele continuava implorando minha companhia. Minha casa, que também já descrevi em histórias anteriores, tinha um portão de ferro que era fechado por uma corrente de aço e um cadeado, abri o cadeado e sem me importar com as suplicas fechei o portão subi a escadaria, abri a porta de entrada e, definitivamente, entrei em casa.
Tinha certeza que o 21 havia se resignado e ido embora. Em casa todos dormiam, avancei pelo corredor, fui ao banheiro, tomei águia e quando me preparava para deitar e dormir ouvi, assustado um grito fortíssimo de socorro.
Corri para a porta da entrada e sai no alpendre de casa e a cena com que me deparei, de tão assustadora era bastante cômica, de pé, no alto do portão de ferro estava, nada mais nada menos que o corajoso 21 gritando por socorro com toda a força de seus pulmões.
Pedi para que viesse para baixo e que calasse a boca para não acordar a todos de casa, mas, inútil todos já estavam acordados e preocupados com o que tinha acontecido. Tratei de acalmar a todos primeiro, mesmo por que o 21 nada mais falava, tinha perdido a voz e nem sequer explicava o que tinha acontecido.
Assim, vesti novamente minhas roupas e me dispus a acompanhá-lo, coisa que ele aceitou balançando efusivamente a cabeça.
Para melhor entendimento desta história informo que eu morava no numero 291 da Rua Augusta, em uma casa que ficava no quarteirão compreendido pelas ruas Caio Prado e Marques de Paranaguá, no quarteirão anterior ao meu, limitado pela Rua Martinho Prado e pela Rua Caio Prado, um pouco antes da antiga sede administrativa da CMTC, ficava a 4ª. Delegacia de Polícia e eu, por ser muito extrovertido me dava bem com todos os policiais ali lotados.
Feitos os esclarecimentos necessários voltemos a história. Já resignado, estava eu acompanhando o 21 e no caminho continuava a sondar para tentar saber o que havia efetivamente acontecido, mas o 21 nada contava. Estávamos assim descendo a Rua Augusta e quando passávamos em frente à 4ª. Delegacia percebi que todos os plantonistas estavam morrendo de rir e, riam ainda mais ao olhar o 21. Lógico, quis saber o porquê da risada e um deles, tomando fôlego, me contou:
-Seu amigo, vinha descendo a rua de forma acelerada e sem olha para os lados, passou por aqui e me vendo de plantão resmungou um boa noite e continuo seu caminho. Não sei por que tive a curiosidade de olhar e acompanhar a sua trajetória, assim vi que, quase colado à parede, ele virou rapidamente a esquina. Ouvi então dois berros, vi ele correndo para cá e no mesmo instante corri para a esquina para saber o que tinha assustado tanto seu amigo. Deparei, então, com uma negrona de quase 2 metros de altura, muito assustada com o encontrão que deu com seu amigo e pelo berro que, simultaneamente, ele soltou.
O resto vocês já podem imaginar, novamente eu tive de levar o 21 até sua casa, entrar pelo corredor e acompanhá-lo até o seu que ele entrasse efetivamente na casa.
Outro dia, durante o velório da mãe do Capezzutto, relembrei esta historia para a esposa do 21 e ela, rindo me contou que até hoje o medo continua o mesmo. Coisas de Um Duque de Piu-Piu.