Infância na Vila Prudente

Fui morar na Vila Prudente em 1949, com quase cinco anos de idade. Nossa casa era na Rua Américo Vespucci, 45, próximo da Rua José Zappi. Dessa rua em diante, em direção à Mooca, no espaço entre a Avenida Pais de Barros e a Rua do Oratório havia uma imensa área ainda não urbanizada que nós chamávamos de "chácara" e tinha muita coisa interessante ali para se fazer. Logo que chegamos, nos fins de semana, íamos meu pai e eu explorar a região. Não tardou para descobrirmos que no fundo do vale corria um pequeno córrego, mas muito pequeno mesmo. Um fiozinho de água, muito limpa, que por entre a vegetação bem rasteira formava aqui e ali pequenas bacias onde havia peixinhos. Depois sempre que podíamos voltávamos e fazíamos pequenos aquários em garrafas com pedrinhas no fundo e tudo mais. Com o passar do tempo, mais e mais coisas fui descobrindo. O campinho de futebol perto do qual num dia pisei em uma taturana (às vezes andava descalço) e senti a dor mais forte que havia sentido até então. Havia por lá muito capim más também pés de pêras, daquelas duras, e também pés de ameixas amarelas que hoje conhecemos por nêsperas, maiores, más cujo sabor não se igualam àquelas. Essa "chácara" era administrada por um senhor Português de sobrenome Canado. Corria uma lenda entre os meninos que ele era muito severo com intrusos, más nunca vi nada que confirmasse isso. Inclusive era amigo de seu neto Valdir e morava no mesmo quarteirão de muitas famílias Canado. Lá pelos meus sete ou oito anos meu divertimento predileto passou a ser as pipas, que aprendi a fazer com meu pai Salvador. O bambu era fácil de se encontrar, papel e linha a gente comprava na venda do Sr. Augusto ( e da D. Madalena), e a cola era farinha de trigo com água. Nessa época não existia ainda esse famigerado "cerol" (vidro moído que é colado à linha), que dizem já causou algumas vítimas. Era uma época sem violência. O que se disputava com as pipas era quem conseguia dar mais linha. Um, dois ou três carretéis de linha. Alguns meninos afirmavam que sua pipa tinha voltado úmida por ter entrado nas nuvens. Era uma maneira de sonhar. Havia outras brincadeiras: jogar bolas de gude, rodar piões, bater bafo com figurinhas, fazer estilingues para atirar mamonas. Em 1951 comecei a estudar no Círculo Operário de Vila Prudente. A primeira professora do Jardim da Infância foi Dona Iracema. Grandes recordações deixou-me a Irmã Casimira, uma pessoa muito doce que ficou em minha lembrança. Dessa época recordo-me do IV Centenário de São Paulo. Fui até o Ibirapuera ver as grandes exposições, más a chuva de prata só vi de casa ao longe, quando os holofotes iluminavam o céu. Tenho até hoje uma daquelas flâmulas de alumínio da Wolff com as quais as Indústrias Pignatari homenagearam a festa. Nesse mesmo ano, 1954, ganhei um cineminha Barlam, comprado no Bazar Lord na rua São Bento. Seu corpo era de baquelite, tinha uma lâmpada de 60W, filmes de papel "manteiga" e projetava imagens na parede. Hoje não tenho mais o cinema ficaram apenas imagens que giram em minha mente como um fantástico carrossel com as coisas boas da minha infância querida.